Quarenta anos sem Souza Naves - Léo de Almeida Neves
Léo de Almeida Neves
Fez 40 anos, dia 12 de dezembro de 1999, que morreu Abilon de Souza Naves. Ele presidiu o antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) do Paraná e foi vice-presidente nacional, exercendo muitas vezes a presidência na década de 1950, fase exuberante em realizações sociais e transformações econômicas no Brasil.
Ele teve importante presença na eleição para presidente da República, em 3 de outubro de 1950, de Getúlio Dornelles Vargas, o maior estadista do século 20, do Brasil e da América Latina. Como dirigente do PTB, Souza Naves participou das lutas para a criação da Petrobrás, e o anúncio da Eletrobrás, feito por Vargas, em Curitiba, ao lado do inolvidável governador Bento Munhoz da Rocha Neto, por ocasião das comemorações do 1º Centenário do Paraná, em 1953.
Souza Naves colaborou, ainda, na fundação do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE) e do Banco do Nordeste. Era uma época em que se adotavam soluções brasileiras para problemas brasileiros.
Ao longo do governo Vargas, Souza Naves foi presidente da Caixa Econômica Federal do Paraná e presidente do Ipase (Instituto de Previdência e Assistência aos Servidores do Estado). No Paraná, ele foi o primeiro secretário do Trabalho e Assistência Social, pasta criada em 1951 no governo Munhoz da Rocha.
Durante o período desenvolvimentista de Juscelino Kubitschek de Oliveira, que rompeu com o FMI e fez o Brasil avançar 50 anos em cinco de mandato, Abilon de Souza Naves realizou seu trabalho de maior repercussão como diretor da Carteira de Crédito Agrícola e Industrial (Creai) do Banco do Brasil.
Duas geadas consecutivas, em 1953 e 1955, tinham arrasado a cafeicultura paranaense. Em 1956, Souza Naves foi empossado na Creai. Financiou a juros baixos e prazos longos a recuperação das lavouras atingidas e novos plantios. Concedeu empréstimos para a formação de diversas culturas. Concedeu empréstimos para a construção de moinhos de trigo e outras agroindústrias. Incentivou a ampliação do nascente parque industrial paranaense em todas as regiões. O Paraná assumiu, poucos anos após (1959 a 1962), a liderança na produção cafeeira brasileira, chegando a colher 22 milhões de sacas anuais.
No exercício de importantes funções públicas, Abilon de Souza Naves se houve com atuação impecável, pelo seu dinamismo, iniciativas criadoras, austeridade e honradez dignificantes. Mas a dimensão humana e o tirocínio político de Souza Naves se sobressaem, talvez com maior amplitude, quando se analisa sua conduta como líder trabalhista, nos âmbitos nacional e paranaense.
Ele defendeu reivindicações dos trabalhadores, principalmente para a melhoria do salário mínimo, ao tempo dos governos Vargas e Kubitschek, sem extremismo ou radicalizações. Interveio em prol das conquistas nacionalistas, imune a qualquer caráter xenófobo.
Souza Naves era um agregador, sempre preocupado em atrair novos e bons quadros para seu partido, ao mesmo tempo em que se empenhava em não perder companheiros de porfias passadas. Mantinha permanente atitude de respeito e consideração aos adversários políticos, dialogando, convivendo e se tornando amigo de muitos deles. Era conciliador por excelência.
Em vários episódios, Souza Naves demonstrou sua perspicácia e clarividência. Na eleição municipal de Curitiba, em 3 de outubro de 1958, trouxe para o PTB o general Iberê de Mattos, engenheiro civil militar, que participara da construção da Usina Siderúrgica de Volta Redonda, ex-diretor da Rede Viação Paraná-Santa Catarina, onde se tornara ídolo dos ferroviários. Indicou-o candidato a prefeito e derrotou o nome apoiado por Ney Braga, que terminava seu mandato cercado de grande prestígio.
Nesse mesmo pleito, Souza Naves deu jogada de mestre no tabuleiro do xadrez político ao convidar, para ser candidato a deputado federal pelo PTB do Paraná, o então governador de São Paulo, Jânio Quadros, que vivera parte de sua juventude em Curitiba e estudara no Internato Paranaense. Jânio se elegeu o mais votado do Paraná e este mandato manteve-o em evidência durante a transição, facilitando-lhe a chegada à presidência da República dois anos depois, em 1960.
Disputando o Senado, em 1958, Souza Naves obteve consagradora vitória, ultrapassando a soma da votação dos seus adversários, o ex-presidente do TJE do Paraná e ex-deputado federal constituinte José Munhoz de Mello, do PSD, e o coronel Francisco de Paula Soares Neto, ex-secretário da Fazenda, da UDN, duas inatacáveis personalidades que desfrutavam de elevado conceito público.
Vigoroso apoio em todas as camadas sociais do Paraná tornava inexorável a caminhada de Abilon de Souza Naves, conduzindo o trabalhismo ao Palácio Iguaçu. A súbita morte aos 54 anos, após jantar de homenagem na Sociedade Morgenau, em Curitiba, interrompeu essa admirável carreira política. Esse fato mudou o destino político do Paraná e do Brasil. Abriu o caminho para Ney Braga se eleger governador do Paraná e palmilhar triunfante trajetória político-administrativa no Estado e no País.
Com Souza Naves governador do Paraná, Jânio Quadros não renunciaria à presidência da República, porque antes de praticar esse tresloucado ato ouviria seu amigo, provavelmente a única pessoa a quem respeitava e confiava integralmente e, por certo, seria dissuadido. A habilidade política de Souza Naves e sua autoridade moral impediriam que a história do Brasil mudasse seu curso e a democracia sofresse um hiato de 20 anos.
Foram justas e merecidas as homenagens tributadas a Abilon de Souza Naves em todo o Paraná, com destaque para a sessão especial da Assembléia Legislativa, requerida pelo líder do PDT Edgard Bueno, realizada no último dia 13, para a qual me honraram com o convite, aceito, de proferir palestra.





