Tendo sido honrada com o convite da Folha de Londrina/Folha do Paraná, para participar de um debate sobre ‘‘A força, o poder, o significado e o valor do voto’’, estive no dia 19 deste em Curitiba. Na Redação da Folha do Paraná reuni-me ao sociólogo Ricardo Costa de Oliveira da Universidade Federal do Paraná (UFPR), ao historiador Marco Aurélio Monteiro Pereira da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e ao historiador Valdir Gregory da Universidade Estadual do Oeste do Paraná (Unioeste). Durante longas horas fomos sabatinados pelos jornalistas Egídio Brizola, editor de Política que mediou o debate, Valmir Denardin e Rubens Burigo Neto, respondendo cada um de nós às questões a partir de análises calcadas em nossas respectivas áreas de conhecimento.
Os temas que ressaltaram do intercâmbio de idéias entre jornalistas e professores tornaram-se tão candentes e interessantes, que se pudéssemos permaneceríamos por mais tempo a explanar sobre conceitos e a tecer considerações sobre a temática política. Entretanto, esgotado o prazo por conta dos horários e das responsabilidades profissionais, despedimo-nos, reconhecendo que o encontro foi mutuamente enriquecedor e excelente a iniciativa do jornal que nos abriu o espaço para assuntos de tão grande relevância para o cultivo cidadania.
Exatamente pela importância dos temas e por ser a véspera da eleição municipal, volto ainda aos mesmos numa tentativa de complementar o que me escapou naqueles momentos do debate. Antes, porém, quero comentar a percepção que me ficou bem nítida, enquanto meus colegas de universidade e eu passeávamos nossas idéias pelo terreno fascinante da política.
É que diante de mim se descortinaram três Paranás de características culturais distintas, fundidos num só Estado: primeiro, o Norte do Paraná, nascido da colonização sui generis levada a cabo por ingleses da Companhia de Terras com o concurso notadamente de mineiros e paulistas, e que iniciada em 1929 em meio à mata luxuriante que escondia as promessas do futuro, acabou realizando a única reforma agrária que deu certo no Brasil e um dos processos de urbanização mais velozes do Planeta.
O norte-paranaense dos ‘‘pés-vermelhos’’ cultiva certa independência altiva em relação ao Sul. Brotado no berço esplêndido dos cafezais, quando o ouro verde prodigalizava prosperidade aos que se dedicavam com afinco à terra fértil e roxa onde se plantando tudo dá, tem em Londrina, a ‘‘filha de Londres’’, segunda cidade mais importante do Estado, sua capital do Norte. Uma vocação de oposição caracteriza essa região na política, mesmo quando as artimanhas do jogo do poder conduzem às alianças com o Sul. Ao mesmo tempo, uma antiga rivalidade, no fundo fraterna, por vezes entremeia ditos e gracejos que pontilham as observações e conversas feitas entre os descendentes dos desbravadores do Norte e os filhos das diversas e tradicionais etnias do Sul.
O Sul que se expande à sombra das belas araucárias, concentra-se em Curitiba, capital do Estado, cidade onde mora o Paraná e onde o leite quente com chocolate fica mais gostoso na pronuncia marcada do ‘‘ê’’. Européia e refinada, Curitiba se reflete vaidosa nos vidros muito limpos e polidos dos seus prédios e casas, enquanto contorna praças e monumentos circulando no ar gelado que pede roupas elegantes e aconchegos refinados de bares e restaurantes. No Sul, a política acompanha a tradição, que das etnias se desdobrou em famílias importantes, orgulhosas de suas origens e zelosas de sua continuidade.
O Oeste e o Centro-Oeste traduzem a concentração de gaúchos e catarinenses. Tanto estes quanto os primeiros, que inviabilizados pelo minifúndio acorreram ao Paraná, marcaram com suas características típicas a região em que se enquistaram, enquanto perpetuavam suas tradições políticas, agrícolas e comerciais entre um sorvo e outro de chimarrão.
Como nos demais Estados do Brasil, o Paraná se defronta amanhã com as urnas. Em algumas cidades já se desenha o resultado eleitoral. Sobre outras paira uma solene sensação de incógnita, abrigada entre temores ou esperanças refugiados no fundo do coração de eleitores e candidatos.
Açoitados pela onda de cassações que se abateu sobre prefeituras do Paraná, eleitores paranaenses mais conscientes refletem sobre o voto a ser dado. Pouco a pouco emerge a percepção da importância da entrega do poder a alguém para que este decida por todos em questões públicas. No ar percebe-se um certo desencanto, avultando, porém aqui e ali a sensação de que não se pode errar, pois o erro político se paga muitas vezes através de gerações.
Enquanto isso, ronda por toda parte o perigo das escolhas malfeitas. Afinal, como explicaram os cientistas políticos Almond e Powell, existem nas atitudes políticas ‘‘componentes afetivos’’, que para além do julgamento racional manejam sentimentos de atração ou de repulsão, de simpatia ou de antipatia, de admiração ou de menosprezo etc. E sobre tais sentimentos é que se alicerçam a personalização do poder e os laços que ligam o político à sua ‘‘clientela’’.
Estes ‘‘componentes afetivos’’ costumam ser mais intensos na grande massa de pobreza, cujas necessidades prementes conduzem a um maior imediatismo. Afinal, a clientela política composta sobretudo pela pobreza extrema, constitui terreno fértil para as pregações que apelam para os sentimentos e atingem as emoções. Compartilhando com as demais classes sociais o gosto pela política no seu aspecto lúdico e onírico, os pobres adaptam seu universo específico de valores e aspirações à imagem ideal do político, apostam em candidatos como num jogo, procuram obter nas campanhas eleitorais o máximo de vantagens possíveis, escolhem aquele que o coração mandar.
Mas tudo muda através da dinâmica social, do rio da história que flui no tempo e, assim, nessa encruzilhada política, quando se define em cada Estado os rumos do futuro, torçamos para que aflore em todos os cantos e recantos dessa imensa Nação eleitores que saibam pensar e votar, capazes de impor ao governo um direção definida. Desse modo iremos contrariar o francês Louis Couty, que em 1881 escreveu depois de observar nossa realidade: ‘‘O Brasil não tem povo.’’
- MARIA LUCIA VICTOR BARBOSA é socióloga, escritora e professora universitária em Londrina
E-mail: [email protected]

mockup