Quanto custa a corrupção
A Fundação Konrad Adenauer, uma fundação política da República Federal da Alemanha, acaba de lançar uma coletânea chamada Os Custos da Corrupção. Nela, uma série de autores, brasileiros e alemães, analisa em vários ensaios exatamente os custos da corrupção e os meios de impedi-la. Segundo o estudo, a corrupção é o maior obstáculo para o desenvolvimento. Ela aprofunda o fosso entre ricos e pobres, enquanto elites vorazes saqueiam o orçamento público. Causa distorções na concorrência, ao obrigar empresas a desviar importâncias cada vez maiores para obter novos contratos. Solapa a democracia, a confiança no Estado, a legitimidade dos governos, a moral pública. A experiência demonstra: a corrupção pode debilitar uma sociedade. Afirma que, de modo algum a corrupção é fenômeno limitado às chamadas republiquetas de banana ou ditaduras do Terceiro Mundo. Ela está presente em muitos países, sejam eles ricos ou pobres, tenham governo democrático ou autoritário. E pergunta: não haveria, então, remédio para a corrupção? Devemos nos limitar a tolerá-la?
Se é verdade que sempre houve corrupção no mundo, nunca, no decorrer da história, foi tão extensa, nem teve efeitos tão ameaçadores como na atualidade. No caso brasileiro chega-se a ponto da sociedade não ter nenhuma perspectiva, a curto ou médio prazo, que alguma coisa possa mudar. Por uma razão simples: qualquer alteração no status-quo vigente requer, em primeiro lugar, uma profunda transformação política no país, o que torna cada vez mais relevante o papel dos políticos e dos partidos. Mas a situação se torna problemática quando a sociedade não acredita exatamente nos partidos e nos políticos. Este é o nó da questão.
Razões para tanto não faltam. Por um lado, temos um sistema eleitoral retrógrado e clientelista, onde os partidos políticos servem apenas de fachada para garantir os interesses de seus donatários; uma legislação incapaz de coibir gastos abusivos, que permite aos candidatos torrarem milhões de reais ou dólares para garantir sua eleição, quando qualquer soma aritmética mostra que é impossível recuperar este prejuízo à custa de salários e mordomias. De outro, o comportamento dos homens públicos. Os episódios que envolveram as eleições para as mesas diretoras do Senado e Câmara dos Deputados são apenas um retrato 3x4 da política verde-amarela. Os manuais utilizados, principalmente na disputa pela presidência do Senado, foram livros impressos as pressas e distribuídos de mão em mão, onde os senadores Antonio Carlos Magalhães e Jader Barbalho trocavam ofensas e acusações de falcatruas e corrupção. Era difícil saber, pelo fogo cruzado, quem era pior.
A experiência tem mostrado que apesar da necessidade em reformular o modelo eleitoral em todos os seus aspectos, nada é mais importante que a participação popular neste projeto. Em recente visita ao Paraná, o ministro do STJ, Milton Luiz Pereira, afirmou sem meias palavras que quando a sociedade não é conivente, não se acomoda, não aceita a corrupção e a denuncia, está agindo como um poder censório inibidor ao corruptor. A corrupção não custa apenas no sentido monetário ao erário público. A partir destes exemplos, ela passa a ser um álibi em todas as esferas da vida nacional. Ela não pode ser medida apenas por uma escala de valores financeiros. Não é gratuito o fato de sermos tachados como o país do jeitinho ou de levar vantagem em tudo. A corrupção virou uma espécie de instituição nacional.
No Brasil, as atitudes políticas de nossos homens públicos são quase sempre creditadas ao que se convencionou chamar de tradição política. Em outras palavras: os costumes, o jeito de ser ou a natureza da espécie. Isso lembra a fábula do escorpião que queria atravessar o rio mas não sabia nadar. De repente, um elefante propôs-se a ajudá-lo. O aracnídeo não pensou duas vezes: subiu nas costas do gigante e seguiu rumo a outra margem. Lá chegando, antes de descer não se conteve: cravou o ferrão venenoso no dorso do amigo. Surpreso e já quase desfalecido, o elefante perguntou ao escorpião o porquê daquela atitude, afinal, ele apenas o tinha ajudado. Ao que ele respondeu: desculpe, mas não consigo me controlar. É da minha natureza.
RENÉ RUSCHEL é economista e pós-graduado em Desenvolvimento Econômico





