Cansado do mundo bipolar que as ‘big techs’ desenham na ressignificação da mais valia, desanuvio a angústia em Florbela Espanca (‘podem voar mundos, morrer astros, que tu és como um Deus – princípio e fim’), a grande poetisa da língua portuguesa – em que pese meu amor sem pudor por Clarice.

Passa que Florbela me conecta com a fantasia (‘Dou-te comigo o mundo que Deus fez. Sou Aquela de quem tens saudade. A princesa do conto: ‘Era uma vez...’’) ao tempo em que afasta a amargura, colando no dia uma brisa passional que vale por vidas que não vivi.

Se encontro refúgio na beleza (Florbela), porque diabo me incomoda o mandatário dos pilgrins? Penso que justamente pela fantasia rediviva a me redimir das angústias do viver.

Se não por isso, pelo apego científico que minha herança darwiniana cobra ao anoitecer, naquilo que o prodígio científico que seria a bem da humanidade se revelou, a posteriori, o próprio escrutínio da verdade – tanto que o mandatário atual dos pilgrins, desacreditando a ciência, se desliga da OMS.

Há método nas tolices presidenciais pilgrin e, nesse sentido, a gestão do atual mandatário não é senão um imenso laboratório neoliberal onde se destaca o recém-criado Departamento de Eficiência Governamental (DOGE), liderado por Elon Musk.

O DOGE vem atuando com status de agência federal; blindado das leis de transparência, sua missão imediata é o desmantelamento do serviço púbico estadunidense, enquanto sua verdadeira vocação é fazê-lo sob os holofotes de um imenso espetáculo midiático, centrado na multiplicação exponencial (algorítmica) da imagem de Musk como grande gestor.

A atuação de Elon vai além do desfazimento do serviço público de norte américa, naquilo que tem sido seu intento mais notável humilhar e expor (enquanto descartáveis) o funcionalismo pilgrin, vendendo a ideia contraposta de que o estado é obsoleto e corrupto. Tudo para consolidar a retórica da eficiência privada.

E assim caminha a democracia estadunidense: de histórica (Abrahão Lincoln) a lambe botas de grandes fortunas – pela língua de Donald Trump.

Não obstante a vida ser aquilo que a vida é e não aquilo que projetamos para nossa aventura na Terra, a saída de tio san da OMS desacredita ciência e fortalece o negacionismo, tisnando mundo e saúde em meros detalhes – hoje a economia pilgrin, capturada pelo grande capital, não é senão um equívoco existencial.

Esse modelo gestor do grande capital tem arrimo na releitura de interesse econômico que está sendo metabolizada em redes sociais (controladas pelos próprios bilionários investidores de Donald), naquilo que a razão é cotidianamente atacada pela mentira e isso é impulsionado algoritmicamente – sempre em polo de convívio com os interesses das grandes fortunas.

Abro um ligeiro parênteses para lembrar que liberdade de expressão é cláusula pétrea constitucional, sim, mas que a mentira não se insere neste contexto, justamente porque a fraude não convola qualidade alguma para ser reconhecida enquanto forma de expressão. A mentira é irracional e conflita com a aventura humana na terra, revelando-se um delírio febril das gentes e mais nada.

Entremeio o desvario trumpista aflora uma nova ordem geopolítica, onde tio san perde espaço econômico para a China. Assim, se o carro elétrico de um bilionário qualquer disputa mercado com os elétricos chino, a jogada mais segura do capital aproxima o interesse desse cidadão ao mercado estadunidense – que, por igual, disputa posição com os chineses.

Nesse cipoal de filigranas, as minorias seguem alvos fáceis de um povo embrutecido em sua herança saxônica, onde as raízes fincadas sempre careceram do humor britânico a salpicar de estrelas o chão do Norte.

Vida que segue e América Latina que se reinvente para longe das amarras do mimetismo pilgrin, naquilo que nossas mazelas comerciais estão soltas no mundo multipolar e essa nova ordem pode nos sorrir.

Nesse reinventar não se deve deslembrar da moderna rota da seda e de seu significado, para além dos maneirismos comerciais, naquilo que o mundo já não depende tanto quanto dependia, há algumas décadas, dos Estados Unidos.

Há dor e angústia a sinalizar o bom da vida. Mas há, também, o preceito ético mínimo do estado, traduzido nas entrelinhas em que o homem do século XXI amarrou o seu burro. Essa tantada de disfunção se levanta e cobra compromisso para com a vida – naquilo que viver é muito mais que ter.

Assim seguimos a bailar pela vida sem responder sua essência, uma vez que ainda não sei quantas ruas tem Lisboa – em que pese Amália me perguntar exatamente isso a cada vez que meu podcast solta um fado.

Tristes trópicos, onde o plano de um desgoverno comprometido com o capital individual sobrepõe os interesses de seu próprio povo. Saudade Pai!

João dos Santos Gomes Filho, advogado

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