A educação sexual, no Brasil, caminha a passos lentos, na escola, tão lentos que devemos nos preocupar com as implicações desta omissão. Temos observado ocorrências de estupros e alta incidência da violência, física ou psicológica, a mulheres, crianças, pessoas homossexuais, travestis e transexuais. Temos que fazer algo, com urgência. Reconhecemos que há professores comprometidos, que tratam de questões do relacionamento humano na interface com a sexualidade, em suas aulas. Os alunos ficam mais motivados quando a escola trabalha temas ligados à vida e aos seus interesses e preocupações, como o são as questões da sexualidade.
Sabemos que muitos fazem ideia da educação sexual como sendo apenas o ensino de métodos contraceptivos e prevenção de DSTs e Aids, o que caberia, unicamente, ao professor de Ciências. Mas, asseguramos que a educação sexual vai além, por constituir um espaço para ensinar os alunos a pensar, a desenvolver responsabilidade social, valores e atitudes morais de respeito a si e ao outro e, também, atitudes de respeito a todo tipo de diversidade, racial, religiosa, sexual etc., de modo a complementar a educação dada pela família.
Nas últimas semanas, nos deparamos com dois acontecimentos chocantes: um estupro coletivo no Rio de Janeiro, em 21 de maio, e o massacre na boate gay, dia 12 de junho, em Orlando, nos Estados Unidos. Diante disto, percebemos que, tanto a postura daqueles que pensam que se pode ter acesso ao corpo do outro, como se fosse um objeto, quanto a homofobia têm como base a cultura machista e a falta de valores humanos.
Perguntamo-nos: em que medida as escolas brasileiras aproveitaram esses fatos para levar seus alunos a reflexões que os conscientizem a respeito das implicações das desigualdades de gênero e de orientação sexual?
O massacre citado, juntamente com notícias que acompanhamos, sobre as agressões físicas e as mortes advindas da desigualdade de gênero - quando mulheres são consideradas inferiores aos homens - e da homofobia, fazem lembrar que estes temas devem ser trabalhados com as crianças, os adolescentes e os jovens. Eles precisam ter conhecimentos que sirvam de base para o respeito, como, por exemplo, de que ser homossexual não é doença, e de que não é opção, pois a pessoa não escolhe ser homossexual. Precisam ser informados de que pessoas homossexuais em nada diferem das heterossexuais, em termos de capacidade intelectual e de relacionamento humano. Precisam ser informados sobre os índices de assassinatos de pessoas LGBTT (lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais), como, por exemplo, de que, no Brasil, em 2015, foram registrados 319 assassinatos, e que, em 2016, de janeiro a maio, o número chegou a 133. Trabalhar com esclarecimentos não vai incentivar a criança ou o adolescente a se tornar gay, apenas lhe vai ser útil para que possa entender a diversidade sexual e conviver, respeitosamente, com todos. No que diz respeito aos estupros, é oportuno, por exemplo, o esclarecimento de que 527 mil mulheres, no mínimo, são estupradas por ano, no Brasil, segundo Ipea.
Assim, diante de fatos ocorridos, é válido trazê-los para a sala de aula e complementá-los com conhecimentos que ajudam a dimensionar o problema. Ao debatê-los, os alunos poderão expressar sentimentos e aprenderão a respeitar as opiniões e vivências diferentes das suas.
Ensinar a pensar as questões ligadas à vida e ao relacionamento humano pode se dar em qualquer disciplina. É necessário que um número maior de educadores abracem a causa e, mais que isso, que a direção e a equipe pedagógica assumam o trabalho como uma proposta da escola como um todo.
Finalmente, é urgente que os cursos universitários incluam disciplinas que tratem de todos os temas ligados à sexualidade humana.

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