Quanta demagogia vivemos - Paulo Moretti
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 17 de agosto de 1998
Paulo Moretti 
É de domínio público que, com frequência, a pregação política está eivada de demagogia, chegando a provocar ilusões, e desapontamento, desenganos e amarguras, porque o povo já se convenceu de que sem trabalho e honradez não há promessa de campanha que se transforme em realizações e prosperidade.
Vem se tornando cada vez mais notório o fato de que o povo não confia no político, por ver nele um adulador em época de eleição, um oportunista em troca de votos, um ausente em termos de trabalho e um esquecido em face de promessas.
Com tudo isso, cresce o número de demagogos e aventureiros, de privilégios e regalias, alimentando egoísmos escusos e estranhos interesses. Instala-se, a partir dessa acomodação política, um inércia crônica e um indiferença ingênua, desfigurando um mandato e traindo um voto.
Na mesma proporção da ausência física ou laborativa, com que sofreguidão disputam, às cotoveladas, espaço para caber na fotografia da publicidade ou da ostentação, simulando uma participação que não tiverem, falseando uma atividade que não praticaram.
Os instrumentos da democracia, a pretexto da mediocridade dos carreiristas, não podem deixar de funcionar, despertando, cada vez mais, a consciência nacional dos verdadeiros líderes, cuja ficha ideológica inclui a capacidade e iniciativa, generosa contribuição e ativa inteligência, capazes, por si sós, de superar tibiezas crônicas e melindres descabidos.
Não fazer demagogia é proclamar e praticar a verdade segundo a qual a verdadeira política e o correto mandato se exercem no âmbito de uma realidade em cujo seio o medo cede lugar à audácia, a mediocridade se curva ao bom senso, a esperteza cede lugar à lucidez, a indiferença se curva à consciência.
As conquistas políticas não se sedimentam em fórmulas mágicas nem tampouco em conflitos ideológicos; elas não se definem e se projetam por meio do dever inarredável da prática da justiça social, cuja essência não pode conter tantos cacoetes deformadores, como geralmente sói acontecer.
Já é tempo de reagir contra essa tendência acomodada de deixar tudo como está, para ver como é que fica, apoiando reformas não fanáticas mas ecléticas, repudiando certos políticos incapazes de pensar coerentemente, ignorando certos demagogos contumazes que locupletam das benesses, de um lado, e da fama e prestígio, de outro lado.
Caberia aqui, a título de conclusão, as seguintes perguntas: será que o demagogo é tolerado como um mal inevitável? Se, por outro lado, ele é visto com hostilidade e tratado com desconfiança, de que forma convive entre a vacilação de líderes e a perplexidade de adversários? Até que ponto o choque de interesses será mais, não menos brutal?
Enquanto tais perguntas pairam no ar, cabe ao eleitor transformar seu voto em instrumento afinado de um verdadeiro ideário político e não em descompassado realejo de uma falsa ideologia partidária, da qual, por dever cívico, não podemos ser fiadores.
- PAULO MORETTI é professor em Curitiba


