Na verdade, o caseiro Francenildo apenas deu o empurrão final, porque os grandes conspiradores contra os corruptos são seus próprios atos. A acusação de comportamentos irregulares de Antonio Palocci já vinha desde antes de sua condição de ministro, mas ele não poderia sustentar-se no poder com essa pesada carga sobre seus ombros. O episódio de sua saída, motivada pelo poder da palavra de um humilde caseiro a palavra da verdade contra a da mentira serve para se aproveitar lições. Uma delas, que os poderosos não são intocáveis e com a queda do superministro cai também o presidente da Caixa Econômica Federal (envolvido na violação da conta bancária de Francenildo), Jorge Mattoso. Outra, que o poder do povo, no caso representado pelo caseiro, ainda não foi revogado. O acontecimento que abala a República por momentos, mas logo a poeira se assentará revela que a podridão não se sustenta, e mais fácil se torna extirpá-la quando o povo tem a coragem de levantar-se e reagir. O destemor do caseiro foi decisivo, e contra ele nenhum poder mais alto se susteve. Inegável a participação dos veículos de comunicação, sem os quais a mobilização popular, ou de um único agente como Francenildo, teria menos resistência. Mas é sempre a partir de um ato emergente das massas que a imprensa se move e se posiciona, e contra estes poderes os corruptos e os tiranos sucumbem. A firmeza de um brasileiro, simples e sem respaldo político e econômico, pode causar o aparentemente impossível, isto servindo de exemplo para que se reflita sobre o poder ainda maior de todos unidos. O resultado final do episódio foi uma vitória da cidadania e por extensão da democracia. Se o povo deste país já destronou um Presidente e agora derruba o mais poderoso ministro do Governo, então este povo tem poder! O que acontecer doravante, com o Ministério da Fazenda sob outro comando, só os dias dirão. O que se sabe é que o novo comandante, Guido Mantega, se opunha à ortodoxia da política monetária e fiscal de Palocci e de sua equipe, e criticava abertamente a atuação do Banco Central. Pode, portanto, ocorrer alguma tendência para melhor, ademais possibilitando ao presidente Lula governar mais livremente, sem as amarras que o atrelavam às decisões imperiais de poderoso mandante que cai. Neste momento, no Norte do Paraná, os agricultores se manifestam, inclusive com atos radicais, para alertar o Governo sobre a crise na agricultura. A luta é pertinente e pode produzir resultados do mesmo modo que foi vitoriosa a decidida posição do caseiro porque nada resiste à força da razão se acionada com persistência, com coragem e sem esmorecimento. O momento abre portais mais amplos para se bater à porta do novo ministro da Fazenda, que por ser o guardião do tesouro é o que tem maior poder de respostas e de soluções.

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