Quando tudo termina bem
Pode ser considerado extraordinário o preço obtido pelo governo do Paraná, em outubro, com a venda do Banestado: R$ 1,625 bilhão. Este valor reflete, na verdade, o potencial do banco no mercado e tudo indica que poderia ter passado de R$ 2 bilhões, caso tivesse havido maior concorrência. O importante, contudo, é que o processo de venda terminou bem, ou seja, o leilão foi um sucesso.
Hipóteses sobre o que aconteceria caso o negócio tivesse sido realizado após a venda do Banespa deixam de ser relevantes, embora a lógica indicasse que poderia ocorrer um melhor resultado. Além disso, foi a primeira vez em que se realizou no País a venda de um símbolo estatal em meio a uma eleição. Se houve coragem, visão ou simplesmente ocorreu um erro estratégico, agora já deixou de ser considerado. Prevaleceram, acima de tudo, que a venda foi boa e que o governo ganhou a eleição em Curitiba.
Devido à situação crítica em que se encontrava o Banestado, fui considerado sua última alternativa recebendo a missão de saneá-lo, reestruturá-lo e prepará-lo para o mercado, assim como para dar condições ao Estado de realizar sua venda. Uma experiência enriquecedora, na qual me impressionou o admirável trabalho realizado pela diretoria e os profissionais do banco, considerando o tempo exíguo, um ano e nove meses, e as condições existentes.
É bom ressaltar que um banco público, para efeito da legislação, constitui-se em um ente estatal, submetendo-se portanto, às regras da burocracia pública, o que combinado ao caos gerencial e financeiro encontrado tornou a gestão mais difícil, dadas as necessidades de um mercado que exige operações em tempo real.
Mesmo com opiniões divergentes na condução do processo de privatização, a direção do banco, em nenhum momento, atrasou a condução dos trabalhos ou obstruiu qualquer informação. Valeram o princípio de lealdade ao banco, o profissionalismo e o espírito público.
Inicialmente, tive duas surpresas: a primeira foi que em meus trinta anos de experiência não havia constatado um nível tão elevado de ineficiência e um histórico de desonestidade baseado nos quais posso afirmar que a metade das operações realizadas pelo banco no passado estava em desacordo com as regras de mercado ou foi feita de forma irregular. Por sua vez, a demora na adoção de ações corretivas, que poderiam ter sido feitas com dois anos de antecedência, elevaram em muito o prejuízo com o saneamento do banco, o mesmo ocorrendo com as decisões do Banco Central. O lamentável é que a sociedade paranaense, por intermédio de impostos, vai arcar com mais esse prejuízo.
A segunda surpresa refere-se à capacidade de resposta que a estrutura do banco deu em tão pouco tempo, mostrando a marca forte do Banestado, conquistada em seus 72 anos, à qualidade de seus empregados e ao amor que eles nutrem pela instituição. Condições determinantes para o sucesso em qualquer atividade. Não tenho dúvida de que esses fatores acabaram pesando também na hora de fechar a venda. Ainda à conta deles se explica a identificação do paranaense com a estatal. Afinal, no processo de expansão do Estado nas áreas Norte, Sudoeste e Oeste, centenas de cidades que surgiram tiveram o apoio do banco, nas quais inegavelmente o Banestado exerceu o papel de agente financiador da expansão das atividades rurais, comerciais e industriais, assim como de importantes obras de infra-estrutura do Paraná.
Infelizmente, a venda do Banestado era inevitável, pois mesmo sendo saneado por completo seria impossível torná-lo imune à ação dos governos, que, além de serem ineficientes por definição, não conseguem resistir aos bancos que dão certo, desviando-os de sua finalidade. A tendência seria a repetição desse processo. Evidentemente, meu trabalho de saneá-lo, com profissionalismo e seriedade, teve um preço político junto à elite dirigente, como ocorrido em outras ocasiões. Entretanto, neste momento, o que prevalece é que tudo terminou bem. Por fim, espero que o Banco Itaú tenha sucesso e os empregados do banco encontrem na mudança uma oportunidade positiva.
- REINHOLD STEPHANES é ex-presidente do Banestado e ex-ministro da Previdência e Assistência





