Quando todos querem apitar
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 09 de maio de 1997
Maria Lucia Victor Barbosa 
Vi pela televisão e pelas fotografias de jornal um grupo de deputados apitando no plenário da Câmara. Eram as oposições geralmente auto-denominadas de esquerda, que, subindo nas mesas e fazendo uma barulheira infernal, pareciam imersas em grande felicidade e certas de que o mundo havia parado extasiado diante da manifestação infanto-juvenil. Recordei-me, então, de uma festinha de aniversário de um dos meus filhos que fazia quatro anos. Naquele dia, tive a infeliz idéia de distribuir apitos para o bando de crianças que comparecera a minha casa para festejar e esparramar bolo por toda a parte. Foi um horror. Só depois de arrancar das mãos dos anjinhos o medonho e pequeno instrumento de tortura auditiva, e substitui-lo por amenas línguas-de-sogra, cessou o inferno que pôs todos os vizinhos do prédio em polvorosa. Mas eram crianças de dois a seis anos, e nessa idade ainda não se sabe argumentar.
Vendo agora aqueles cavalheiros de triste figura, que sem a mínima grandeza quixotesca se compraziam em fazer barulho já que não conseguiam se expressar através da fala, fiquei a me indagar se a doença infantil do esquerdismo não seria a origem da degenerescência de atitudes daqueles delegados do povo. Cheguei a conclusão que não, pois não acredito que aqueles senhores se sacrifiquem até ao ridículo para afirmar uma profunda convicção ideológica. A grande maioria dos políticos brasileiros não tem convicções, e isso fica claro se observamos a troca de partidos, coisa corriqueira entre os profissionais da política, que ao sabor de suas conveniências imediatas transpõe-se de uma sigla a outra com a tranquilidade de quem sabe que apenas muda de um clube de interesse para outro.
Mas houve algo mais no apitaço do Congresso em termos de intenções. Na verdade, assiste-se a tentativa de desmoralização do governo Fernando Henrique. Por isso, é preciso invalidar todo o esforço governamental. Urge convencer a sociedade de que tudo vai pessimamente, e dessa forma ir abrindo caminho para a próxima eleição presidencial. É o sonho do Lula-lá que retorna, enquanto os nostálgicos do poder, tais como Brizola, Sarney, Itamar, etc., apostam na arte do possível.
Estão arregimentadas, pois, no país, as vanguardas do atraso. São os que posam de populistas, de nacionalistas exacerbados, de esquerdistas, almejando chegar lá. E por efeito da trajetória do poder, todos querem apitar. Isso aconteceu e ainda está acontecendo na privatização da Vale do Rio Doce, quando se viu pela primeira vez o Judiciário agindo com agilidade espantosa. Nas provocações que se sucedem no movimento dos sem-terra, que teria para ser legítimo se não fossem determinados comandos ideologizados, que jamais se satisfarão, faça o que faça o governo em seu benefício. Alguns dos líderes do MST, inclusive, já estão filmando seus assassinatos para mandar recados, e ao mesmo tempo insinuar que tais atos não passam de bravatas inocentes de pobrezinhos coitados, que apenas querem uma terrinha para produzir.
Simultaneamente, observa-se que certos profissionais da mídia procuram por mais lenha na fogueira. Como o Judiciário, alguns jornalistas tomam partido, e a realidade é facilmente alterada à partir de um jogo de palavras ou de imagens. Diante de tal situação, chega-se à conclusão que o que se chama opinião pública é apenas um fazer a cabeça.
Isso não é difícil na era das comunicações, quando a memória do homem foi tão curta. Paradoxalmente, recebemos um acúmulo de informações jamais havido em outras épocas, mas justamente por serem tantas e em ritmo tão veloz, as informações que se seguem anulam as precedentes, não conseguindo assim os indivíduos reter o quadro geral dos acontecimentos a não ser que fatos sejam martelados durante um bom período. Portanto, opinião pública é hoje aquilo que a mídia apresenta ao público, esvaindo-se a lembrança dos assuntos da mente das pessoas logo que eles saem de pauta.
Nesse momento, há uma crescente efervescência no país. Usa-se e abusa-se de determinadas bandeiras para formar opinião pública. De maneira geral, as causas dessas bandeiras, apesar de falsas, são apresentadas com grandes doses de simpatia e de convencimento. Por exemplo, converte-se o neoliberalismo em satanismo, ou clama-se diante da perda de nossos tesouros com a venda da Vale. Também, funcionam dois pesos e duas medidas: o guarda que matou um cidadão, é um assassino e merece castigo. O sem-terra que matou um segurança, é um idealista e merece compreensão. No fundo de tudo, como único objetivo verdadeiro, a encarniçada campanha presidencial que mistura violência e guerrilha à pretensão de ascensão pela via democrática do voto.
Recordemos, porém, o General Golbery do Couto e Silva. Ele disse que o Estado funciona como o coração nos seus movimentos de diástole e sistole, ou seja, abre e fecha. Provavelmente o General se inspirou em Alexis de Tocqueville. Para este, quando a desordem chega ao cúmulo, estabelece-se a anarquia, mas o poder tende sempre a reconstruir-se. Será que as esquerdas estão saudosas de um poder mais forte?


