Na iniciativa privada fica claro quando a empresa e seus funcionários falham ao desempenharem seus serviços. Como está altamente empenhada numa competição por mercados e serviços, qualquer falha no atendimento ou na produção é prontamente localizada e sanada em vista de uma maximização da produção e do lucro. O funcionário da empresa privada tem sempre este horizonte para pautar seu comportamento na empresa, e desta maneira é passível de ser avaliada facilmente. E no serviço público, em que a estabilidade e a ausência de uma procura imediata com o lucro são
fatores presentes, como saber que o servidor falha ao cumprir suas tarefas?
O servidor público é um empregado que apresenta características distintas do empregado do setor privado. O fato de não lidar diretamente com resultados lucrativos em sua atividade, faz com que o sucesso ou fracasso do servidor público não resulte claramente em ganhos ou perdas financeiras. Ao tentar avaliar a eficiência ou o fracasso de determinado serviço público, teremos que analisar outras características que não o lucro para diagnosticar os problemas do funcionalismo. Quais seriam então os sintomas que permitiriam detectar as falhas do servidor público?
No serviço prestado diretamente ao público, este diagnóstico parece mais simples. Um serviço lento em que as filas se sucedem indefinidamente, são os rastros de um serviço mal prestado. No entanto, culpar o servidor pela má qualidade do serviço pode esconder um problema que se localiza em questões mais estruturais. É necessário analisar as condições que o servidor tem que lidar para exercer seu serviço. Deve-se pensar nas condições oferecidas para que o empregado público possa trabalhar. Neste caso basta pensar em hospitais apodrecendo ou em escolas que mal se agüentam em pé para termos uma idéia das dificuldades que o servidor encontra em muitos casos. Outro fator seria a quantidade de profissionais disponíveis para cada tarefa. Hospitais em que um único médico tem que fazer o trabalho de dois ou mais profissionais são casos rotineiros em nosso país. Podemos pensar também na remuneração insuficiente para dar tranqüilidade para o servidor em muitos casos, como no dos professores, por exemplo. Qual seria então a melhor maneira de saber que o servidor é o culpado pela má gestão da coisa pública e não o próprio sistema que está por trás destes servidores?
Uma das melhores maneiras de fazer esta avaliação passa pela disposição dos servidores em cumprir seu trabalho. Em uma escola em que impere o descaso, os professores não cumprem seus horários e as aulas são simples recitações. Numa escola em que os funcionários da limpeza são negligentes, em que a secretaria não funcione e os diretores não aparecem, à culpa passa por seus funcionários e dirigentes. O descaso e a burocracia são sinais de que este serviço público está sendo gerido com deficiência por seus trabalhadores. Num hospital em que a desumanidade impera é fácil também ligar esta crueldade com a presença de funcionários relapsos. O que é preciso ter em mente é que por conta de deficiências estruturais que existam no serviço público, não podemos aceitar que o funcionário caia no limbo de quem diz que não está nem aí para o sofrimento dos outros.
E no serviço eminentemente administrativo que não lida diretamente com o público, como ocorre em grande parte da máquina estatal, de que maneira é possível detectar o mau funcionamento de uma repartição? A presença de um espírito do funcionário perdedor é uma indicação desta burocracia maligna. Quando um funcionário se encara como um perdedor na vida por ser funcionário público e deixa de ver a importância de sua tarefa, isto contamina toda a parcela do órgão público que tem contato com este empregado. É preciso manter em mente que todo o serviço, por mais impessoal e aparentemente burocrático que seja, carrega uma importante função. Mais ainda, que um funcionamento defeituoso numa área administrativa acarreta perdas para a população mais tarde.
O mais importante é manter uma política de constante valorização deste funcionário para que este seja capaz de efetuar de maneira cada vez mais eficiente seu trabalho. Por parte do servidor público, é preciso abandonar aquela postura de vítima do governo e botar a mão na massa para melhorar o atendimento ao público e cobrar melhorias estruturais. Para aqueles que pretendem ingressar na carreira estatal, é mister pensar que o papel de servidor público passa longe do comodismo e do derrotismo, e que é preciso disposição e ousadia para ingressar nesta que é uma das carreiras mais difíceis e que demandam maior responsabilidade.

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