A Copa do Mundo ou a Copa das Bets? Fica a questão para os brasileiros responderem, considerando que desde o primeiro dia do torneio mundial de futebol, em 11 de junho, até o dia 14 de julho, o país já havia gasto mais de R$ 886 milhões com casas de apostas. O valor médio diário por apostador foi de R$ 211, 12% acima do usual.

Reportagem publicada na FOLHA, em 15 de julho, trouxe dados que são atualizados em tempo real pelo Placar das Bets, criado pela empresa de open finance Klavi. Os números são preocupantes do ponto de vista financeiro porque analistas observam um aprofundamento do endividamento das famílias brasileiras desde a popularização das apostas on-line no país, em dezembro de 2018.

Atualizado diariamente, o Placar das Bets mapeou 104 casas de apostas com base nas movimentações financeiras de aproximadamente 1,2 milhão de pessoas, volume correspondente a 10% dos usuários do sistema financeiro aberto, que autorizaram o compartilhamento de suas informações.

A partir dessa amostragem, o estudo identificou que 38,4% enviaram dinheiro para casas de apostas durante a Copa, somando quase 461 mil pessoas. Apenas no dia 13 de julho, foram R$ 19,8 milhões em apostas. Em um intervalo de 30 dias, entre 9 de junho e 9 de julho, o gráfico desenhado pelo Placar das Bets mostra uma trajetória ascendente, com picos em dias de jogos do Brasil.

Entre os Estados brasileiros, o Paraná foi o sexto que mais apostou no período da Copa, liderando o ranking na região sul. Tocantins, no Norte, tem o maior número de apostadores, seguido de Acre, também no Norte, e Mato Grosso, no Centro-Oeste.

No recorte por gênero e renda, o Placar das Bets mostra que os homens formam a maioria dos apostadores, com 63%, e as classes A e B constituem a maior parcela.

A Copa do Mundo escancara uma contradição preocupante. O futebol, um dos maiores símbolos culturais e afetivos do Brasil, transformou-se na principal vitrine de uma indústria que prospera sobre a promessa de ganhos fáceis e sobre alto risco de perda financeira e de propensão ao vício.

A paixão que une famílias e mobiliza milhões de torcedores vem sendo convertida em estratégia de marketing para estimular apostas cada vez mais frequentes. O resultado já aparece em estatísticas e relatos nos veículos de imprensa e nas redes sociais: mais endividamento, mais casos de compulsão e um impacto crescente sobre a saúde mental dos brasileiros. Um patrimônio da identidade nacional não pode continuar sendo usado para alimentar um modelo de negócios cujos custos recaem sobre a sociedade.

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