Quando o diverso não é plural
"As pessoas passam a considerar verdade incontestável aquilo que confirma as crenças do próprio grupo"
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 29 de maio de 2026
"As pessoas passam a considerar verdade incontestável aquilo que confirma as crenças do próprio grupo"
Alguns minutos em uma rede social: um vídeo postado, comentários rapidamente se dividem em lados opostos e, em poucos instantes, qualquer tentativa de diálogo é substituída por ataques mútuos. A cena se repete diariamente.
O sociólogo espanhol Manuel Castells observou que a sociedade em rede produz simultaneamente uma cultura global e múltiplas identidades fragmentadas. Aparentemente contraditórios, esses fenômenos coexistem e se reforçam mutuamente. Quanto maior a integração tecnológica, mais intensas se tornam determinadas formas de fechamento grupal e identificação afetiva.
Nunca tivemos tantas formas de comunicação e tantas possibilidades de expressão individual. O mundo tornou-se mais diverso. Mas isso não significa a construção de uma convivência comum ou de uma sociedade plural. Vivemos cercados por opiniões diversas, mas pouco dispostos a conviver com elas. Diversidade não é necessariamente pluralidade.
O pluralismo depende da construção de espaços comuns de convivência, regras públicas compartilhadas e da capacidade de grupos distintos reconhecerem-se como integrantes de uma mesma comunidade. Uma sociedade pode ser extremamente diversa e, ao mesmo tempo, profundamente fragmentada, marcada por antagonismos e incapaz de construir algo comum.
As redes sociais não funcionam apenas como instrumentos neutros de comunicação. Plataforma digitais passaram a influenciar a própria forma como as pessoas compreendem a realidade, se relacionam e constroem ou não afinidades. Elas estimulam comportamentos e recompensam formas específicas de interação. A lógica capitalista das plataformas transforma atenção em mercadoria, monetiza antagonismos e favorece conteúdos capazes de produzir reação emocional imediata. O conflito amplia circulação e produz valor econômico. Já a moderação, a reflexão e a mediação racional possuem menor capacidade de alcance.
O resultado é o fortalecimento progressivo do que podemos chamar de "fechamento identitário". O problema surge quando identidades coletivas, construídas em torno de crenças, grupos ou formas de pertencimento, deixam de contribuir para a convivência plural e passam a alimentar conflitos permanentes.
As pessoas passam a considerar verdade incontestável aquilo que confirma as crenças do próprio grupo. Quando o espaço público vai sendo substituído por fluxos emocionais instantâneos, questões coletivas passam a ser tratadas no âmbito privado. Problemas estruturais convertem-se em narrativas individuais ou de grupos fechados. Temas universais — saúde pública, educação, violência, democracia — passam a ser interpretados a partir apenas de experiências pessoais, como se a vivência individual fosse suficiente para explicar questões que dizem respeito à sociedade como um todo. A diferença transforma-se em algo a ser eliminado. Isso reduz a possibilidade do que Habermas chamou de mediação racional necessária à construção de uma esfera pública capaz de sustentar a convivência democrática. Nesse processo, o diverso frequentemente deixa de ser plural, com consequências políticas e jurídicas.
A Constituição brasileira é fruto de uma concepção moderna de sociedade fundada na pluralidade. Seu objetivo não é eliminar diferenças, mas permitir sua convivência dentro de uma ordem baseada em direitos, participação coletiva e na capacidade de os cidadãos se respeitarem mutuamente como integrantes de uma mesma comunidade. O pluralismo constitucional pressupõe regras e espaços comuns de convivência capazes de impedir que a sociedade se dissolva em conflitos permanentes. Pressupõe também a existência de uma linguagem pública comum e de condições mínimas para que diferenças políticas, culturais, religiosas e sociais convivam sem que uma passe a tratar a outra como ameaça a ser eliminada.
Mas a fragmentação produzida pelas redes digitais dificulta exatamente essa construção.
O problema central não é simplesmente tecnológico. O maior desafio não é produzir mais vozes — isso já foi alcançado. Precisamos reconstruir condições para que essas vozes possam se encontrar em um espaço compartilhado. Isso exige reconhecer que a lógica econômica das plataformas transforma conflito e polarização em fontes permanentes de lucro — e que enfrentar essa lógica fragmentadora e conflituosa passa por investir em educação capaz de formar cidadãos aptos a navegar criticamente o ambiente digital, e por fortalecer instituições e espaços coletivos onde a divergência possa ser vivida como parte natural da convivência democrática, e não como razão para transformar o outro em inimigo permanente.
Talvez o maior colonialismo da atualidade não seja mais a ocupação territorial clássica, mas a colonização das próprias formas de percepção humana. Quando a comunicação deixa de construir convivência para apenas intensificar conflitos, o diverso já não se transforma em plural.
João Luiz Esteves e Eduardo Figueiredo. Professores de Direito Constitucional e Direito Administrativo da Universidade Estadual de Londrina.


Patrícia Maria Alves
Editor e Gerente de Produtos Digitais


