Os resultados de uma pesquisa divulgada esta semana mostrando que mais da metade dos brasileiros não confia nas pessoas causou surpresa. O que aconteceu com o povo cordial, alegre e receptivo? Afinal, não foram essas as características que marcaram a nação "verde e amerela" durante décadas?
A pesquisa "Retratos da Sociedade Brasileira: Padrão de Vida" feita pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), em parceria com o Ibope, ouviu 2.002 pessoas em 143 municípios. O estudo apontou que 62% dos brasileiros dizem ter pouca ou nenhuma confiança nas pessoas e 82% acreditam que a maioria só quer levar vantagem. A parcela dos que dizem confiar quase nada ou não confiar é maior entre os moradores do interior do País (64%) do que entre os das capitais (60%).
Quando a abordagem se volta para a família, a situação muda, pois 73% dos entrevistados têm muita confiança nos parentes próximos. Porém, indagados sobre as outras pessoas com quem convivem, a desconfiança aumenta: só 18% dizem confiar muito nos amigos, 11% nos vizinhos e 9% nos colegas de trabalho ou da escola. Apenas 6% têm muita confiança nas outras pessoas.
Ao analisar os resultados do estudo, dois aspectos precisam ser levados em consideração. O primeiro diz respeito a essa característica de personalidade do cidadão brasileiro, a desconfiança. Há motivos de sobra para esse julgamento. Exemplos: o troco de um centavo que nunca chega na mão do cliente; o famoso "jeitinho", o "fura-fila", o atestado de saúde frio para justificar falta no emprego; o aumento astronômico das diárias de hotéis e passagens aéreas no período da Copa do Mundo. Sem mencionar ainda as decepções constantemente impostas pela classe política ao povo brasileiro.
O segundo aspecto foi levantado pelos coordenadores da pesquisa. Esse alto grau de desconfiança resulta em uma sociedade mais burocrática, pois o temor de ser enganado gera mais documentos e taxas. Provavelmente, se o brasileiro percebesse punição para os "espertos" que abusam da boa-fé do povo, provavelmente aumentaria o grau de confiança do cidadão em relação aos colegas de trabalho, ao comerciante e ao próprio governo.

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