Quando éramos 90 milhões - J. Roberto Whitaker Penteado
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 11 de junho de 1998
J. Roberto Whitaker Penteado 
Você sabia que o hino do futebol brasileiro - a marcha Prá Frente, Brasil -foi escolhido como tema da Copa de 70 por três gringos?
Pois é, ano de Copa do Mundo é ano bom para o mercado publicitário. Brilhe o Brasil ou faça feio, os contratos são fechados com muita antecedência e cobrem toda a copa - até o último jogo, mesmo que seja um improvável Japão x Jamaica... Mas é claro que, se o Brasil for vencedor, a festa se prolonga pelo resto do ano.
Minha primeira Copa, como publicitário, foi a de 70. Sorte de iniciante, certamente. Naturalmente, o trabalho começou no ano anterior, em 69. Minha agência era a Almap - então só Alcantara Machado Publicidade, sem Periscinoto ou BBDO. Nossa conta era da Gillette. Os talentos reunidos de Otto Barros Vidal, Altino J. de Barros e Gualter Leão conseguiram fechar, com as três redes (ainda incipientes) de TV - Globo, Bandeirantes e Record -, um contrato único, pelo qual apenas três anunciantes seriam os patrocinadores de toda a Copa, a primeira a ser transmitida ao vivo - embora em P&B -para todo o país. Os outros dois, além da Gillette, foram as também multis Esso e Souza Cruz. E suas agências eram a McCann Erickson e a J. Walter Thompson. Os setores de jornalismo das redes conseguiram se entender para confiar a narração das partidas a Geraldo José de Almeida, cujo vozeirão e marca-registrada - linda! linda! linda! - ressoam, até hoje, nos ouvidos de quem participou daquela primeira Copa pela TV.
Entre as promoções prévias à Copa estavam um concurso da lâmina Super-inoxidável (a intermináaaaavel), com prêmios de viagem ao México, para assistir aos jogos e testemunhais de Pelé (digo que eram bons tempos aqueles) e um outro - menos conhecido - para escolher a música que serviria de tema musical para as transmissões dos jogos pela televisão.
O concurso foi um grande sucesso, tendo aumentado a venda de lâminas - considerada pouco elástica, pelos especialistas - em mais de 50%. Mas surpresa, mesmo, foi o número de músicas inscritas para servir de tema da Copa. Eram centenas e tiveram de passsar por uma seleção prévia para que os anunciantes e suas agências pudessem fazer a escolha, de acordo com o regulamento.
No dia combinado, reunimo-nos na antiga sede carioca da JWT: o prédio da Albacap, esquina de Uruguaiana com Presidente Vargas. Tinha de ser no Rio, claro, pois os patrocinadores eram todos cariocas. (Aliás, dos três, só a Gillette emigrou para São Paulo). Participavam o Otto, o Julio Cosi Jr. e eu, pela Almap; Gaston Levy e Eugenia Nussinkis, pela Gillette; Gualter Leão e Stanley Chevalier, pela JWT; Mike Heath e o presidente da Souza Cruz; Altino, pela McCann e o pessoal da Esso. Infelizmente, a memória - mesmo exigida - não deu conta de todos os nomes.
Ninguém sabia quem eram os autores das músicas finalistas. Creio que ouvimos umas 20 músicas - todas muito boas. Os concorrentes - acredite - eram do quilate de Edu Lobo, Chico Buarque e Carlos Imperial, além, é claro, da marchinha vitoriosa de Miguel Gustavo. Só que a vitória não foi de goleada, nem saiu no primeiro turno. Pra Frente Brasil ficou em primeiro, mas por 2 a 1. Souza Cruz estava contra e seu presidente irredutível em defesa do segundo lugar.
O assunto acabou se resolvendo entre quatro paredes, numa reunião sem testemunhas, entre os três presidentes: um egípcio, um inglês e um norte-americano. Consta que foi Levy que conseguiu persuadir o recalcitrante presidente da Souza Cruz...
Julio Cosi Jr. - com quem conversei - não concorda muito com minha versão de que foram os gringos que escolheram nosso hino do futebol. Diz ele que os brasileiros presentes à reunião também estavam a favor. Mas não há dúvidas de que se registrou um impasse, do qual só se saiu graças à improvisada reunião de cúpula...
O fato é que mal sabíamos que, naquele dia, estávamos participando um pouco da História. Embora essencialmente efêmera e mercantil, às vezes, a atividade da propaganda também permite essas experiências marcantes.


