Como advogado que jurou defender a Constituição, a ordem jurídica e o Estado Democrático de Direito, é impossível calar diante da degradação institucional que assola o país. As estarrecedoras revelações trazidas a público pela imprensa e relatórios da Polícia Federal — expondo relações de promiscuidade entre integrantes da cúpula do Poder Judiciário, da Procuradoria-Geral da República e atores do poder econômico investigados por fraudes — não configuram mero desvio de conduta. Trata-se do desmanche moral da mais alta Corte do Brasil.

O que assistimos estarrecidos não é a liturgia do cargo, mas a mercantilização da influência e a supressão do princípio republicano fundamental: a igualdade de todos perante a lei. Quando mensagens e registros oficiais revelam encontros escusos, favores patrimoniais e orientações de bastidor a alvos de apurações, o magistrado despe-se da imparcialidade e assume a postura de cúmplice. Resta implodida a segurança jurídica.

A advocacia brasileira não aceita o silêncio covarde do corporativismo nem a normalização do escândalo. A sociedade civil, a começar pela nossa atuante Londrina, exige respostas enérgicas do Senado e das instâncias correcionais. Juiz não é soberano; ministro não é divindade; e o Supremo Tribunal Federal não pertence a quem temporariamente o ocupa, mas ao povo brasileiro.

A impunidade no topo da pirâmide estatal destrói a crença na Justiça e empurra a nação para a anomia. Quem não tem honra para sustentar o peso da toga deve deixá-la imediatamente, prestando contas de seus atos sob o rigor inegociável da lei penal. Sem magistratura íntegra, não há advocacia que resista, nem República que sobreviva.

Ruy Carneiro Giraldes Neto, advogado

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