Quando a imprensa chuta
José Fernando da Silva
Na madrugada do último domingo, aparentemente acabou o drama de Celina e Beatriz Abagge, mãe e filha. Elas foram acusadas de terem mandado matar o menino Evandro Ramos Caetano num suposto ritual de magia negra, em Guaratuba, Litoral do Paraná. Digo aparentemente, pois seria impossível reparar o sofrimento, a vida perdida e todos os danos impostos a estas duas cidadãs. Inocentadas, embora podendo voltar a júri, elas tentam recomeçar a vida e esquecer os seis longos anos de agonia e condenação antecipada.
Não quero fazer juízo dos autos ou do julgamento em si, tão discutidos nos últimos dias. Questiono aqui a possibilidade de se ter uma condenação antes mesmo de se esboçar a defesa.
A imprensa nacional aprendeu muito com o episódio da Escola Base, no ano de 1994, em São Paulo. E temos muito que aprender com o Caso Evandro. Tanto lá, quanto aqui, fomos vítimas do mal já apontado por Eça de Queiroz, ainda no final do século passado. ‘‘Não penses que, moralista amargo, exagero como qualquer São João Crisóstomo. Considera antes como foi incontestavelmente a Imprensa, que, com sua maneira atabalhoada de tudo afirmar, de tudo julgar, mais enraizou em nosso tempo o funesto hábito de juízos ligeiros.’
E que amontoado de juízos ligeiros se abateu sobre Celina e Beatriz! - com as raríssimas exceções de sempre. Durante 45 dias elas foram expostas ao fuzilamento público, quase sendo mortas pela turba animada pela irresponsabilidade do secretário de Segurança da época, Moacir Favetti. A imprensa simplesmente embarcou na primeira canoa furada da versão oficial. Nada se verificou, nada foi apurado como mandam as mais elementares normas do jornalismo. Nem mesmo a história absurda de ritual de magia negra, tão anacrônica neste final de século, como as seitas de suicidas que esperam o final do mundo.
Alguns justificam o ‘‘trabalho’’ da imprensa neste caso como uma resposta à opinião pública, sedenta de soluções para os inúmeros casos de crianças desaparecidas no Paraná. Mas quem é que forma este ente do além chamada opinião pública? Quem tem a obrigação de esclarecê-la? ‘‘Com que soberana facilidade declaramos: ‘Este é uma besta! Aquele é um maroto! Para proclamar - ‘É um gênio! ou ‘É um santo! oferecemos uma resistência mais considerada’’, conclui Eça de Queiroz, que era também jornalista.
Para estamparmos, de forma escancarada, manchetes sensacionalistas classificando as acusadas de ‘‘bruxas’’ não demoramos quase nada. O repórter tinha uma tese de condenação já provada por ele mesmo em ‘‘fatos’’ tão sobrenaturais quanto a própria história. O editor precisava de um bom material para abrir sua página, acreditando que os leitores já acompanhavam a história com a mesma curiosidade em que se segue uma novela global.
Mas a vida não é novela com roteiristas dentro de uma redação de jornal. Nem um assassinato pode ser objeto de uma tese de repórter. Neste episódio, fomos, no mínimo, desatenciosos com os fundamentos elementares de nossa profissão: desconfiar das versões apresentadas, ouvir o máximo de fontes e investigar com isenção. Nossa atitude se assemelhou a do jogador de futebol que, mesmo sem muita técnica, prefere colocar o coração na ponta da chuteira e, chutando a torto e a direito, tenta marcar gols. No chute pouco se consegue.
‘‘É com impressões fluídas que formamos nossas maciças conclusões. Para julgar o fato mais complexo, largamente nos contentamos com o boato, mal escutado a uma esquina, numa manhã de vento’’, vaticinou Eça de Queiroz e com razão, há pelo menos um século. E as esquinas, e as manhãs de vento, continuam as mesmas.
JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha em Curitiba

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