Quando a honestidade vira notícia
Valores morais e éticos aos poucos estão caindo no esquecimento. Há poucos dias o Brasil se surpreendeu com a notícia de que um casal de mendigos havia devolvido R$ 20 mil, encontrados em um canteiro em São Paulo. O dinheiro havia sido roubado pouco antes de um restaurante e abandonado pelo ladrão. A atitude, sem dúvida louvável e digna de aplausos, merece elogios, mas deveria ser encarada como um fato normal, corriqueiro e que deveria fazer parte da vida da maioria das pessoas.
Em entrevista à FOLHA, Rejaniel de Jesus Silva, que esteve em Andirá (Norte Pioneiro) para visitar os sogros, também se disse surpreso com a repercussão do caso. ''A honestidade virou notícia. O que era para ser um minuto de fama, acabou virando mais de dez dias.'' Bastante articulado, embora não tenha concluído nem o Ensino Fundamental, a explicação para a devolução do dinheiro está baseada nos ensinamentos da mãe e na educação que recebeu quando criança. ''Minha mãe me ensinou a não pegar o que não é meu. E aquele dinheiro tinha dono. Quando eu era pequeno, minha mãe vivia dizendo para eu nunca roubar, mentir ou pegar o que é dos outros.'' Além da fama, o ato garantiu ao casal um novo começo de vida, com a oferta de emprego e uma casa. Uma justa recompensa.
A cultura do ''famoso jeitinho'' e do costume de ''levar vantagem em tudo'' está disseminada entre a população brasileira. Hábitos como esses é que contribuem para os casos de corrupção, denunciados diariamente pela imprensa, de sonegação fiscal e até de compra de votos. São práticas que, implicitamente, estão aceitas entre os brasileiros e que são tachados até como ''crimes menores''. Tal o comodismo e a passividade diante dessa situação que os agentes envolvidos se sentem confortáveis ao afirmar, por exemplo, que a divulgação na internet de que despesas particulares foram pagas com dinheiro público ocorreu ''por excesso de sinceridade''; de candidatos que confrontados por uma dívida fiscal já em execução com o Município que ele deseja governar afirmar que o fato é normal porque ''todo empresário deve impostos''.
São explicações como essas que não podem ser mais aceitas. A população tem que se surpreender com essas atitudes, não com o fato de que um mendigo devolveu um dinheiro que não lhe pertencia. Neste último caso, Rejaniel e sua companheira terão a oportunidade de mudar de vida. E nós brasileiros até quando suportaremos práticas ilícitas como se fossem normais? A indignação restrita a alguns poucos deve ser extrapolada para ações concretas que, de fato, mude a forma de fazer política no País.





