Quando a bolsa é a vida
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quinta-feira, 05 de setembro de 2019
Folha de Londrina 
O sonho de milhares de jovens que pretendem seguir carreira acadêmica ou atuar em pesquisa no País ficou mais distante depois do governo anunciar o corte de 5.613 bolsas de mestrado, doutorado e pós-doc no último dia 2. O número corresponde só aos cortes feitos na Capes – Coordenadoria de Pessoal de Nível Superior - para bolsas previstas para os últimos quatro meses do ano. Segundo fontes do governo isso representa “uma economia de R$ 37,8 milhões em 2019”, sendo que a projeção é que nos próximos quatro anos R$ 544 milhões deixem de ser investidos em bolsas de estudos.
O corte na Capes ocorreu pouco mais de um mês depois do CNPq - Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, outra agência nacional de financiamento de pesquisa, suspender o processo de seleção de bolsistas no Brasil e no exterior, por falta de recursos, alegando um deficit de R$ 330 milhões no orçamento.
Num País no qual a solução para o desemprego foi apresentada como a adesão a um mercado informal, que tem respondido precariamente às demandas de milhares de desempregados, o sonho de seguir uma carreira estável, antes vista como caminho a ser trilhado através do estudo, também parece distanciar-se daqueles que apostavam na preparação profissional que depende de formação criteriosa. Na verdade, uma exigência do mercado que não encontra eco na realidade.
Muitos jovens, sem condições financeiras e oriundos de escolas públicas, chegaram aos bancos universitários nas últimas décadas graças a programas e bolsas que garantiram seu ingresso em cursos que antes eram um privilégio. Isso não significa que financiamentos como o Fies tenham sido suficientes para resolver um problema crônico no Brasil: a falta de garantias para frequentar uma universidade quando o aluno não consegue uma vaga numa instituição pública. Se o sonho de fazer um curso universitário já é distante para a maioria da população, chegar a uma pós-graduação apresenta-se cada vez mais como um artigo de luxo.
Se os números são frios, as histórias de vida de milhares de estudantes que estão sendo “dispensados de seus sonhos” têm aparecido na imprensa nos últimos dias, dando identidade a quem teve seu sonho subtraído por uma medida questionável, tendo em vista outros “investimentos” como o do Fundo Eleitoral.
Na contrapartida, em junho o governo federal solicitou ao Congresso uma verba suplementar de R$ 248 bilhões para equilibrar as contas. Os parlamentares concederam sob a condição de que R$ 330 milhões fossem destinados às bolsas do CNPq, mas até hoje não se tem notícia do cumprimento deste acordo. Esta verba, pagaria não só as bolsas nas universidades, mas trata-se da condição necessária para que alunos do ensino médio também possam continuar os estudos.
No último domingo , uma rede nacional de TV mostrou o caso de uma aluna do ensino médio de Cocais dos Alves, no Piauí, medalhista de prata nas olimpíadas nacionais de matemática. Ela é uma entre milhares de estudantes pobres que fizeram jus a uma bolsa de R$ 100 reais por mês, concedida pelo CNPq , para poder continuar os estudos. Sua família tem renda mensal de R$ 500, de modo que os R$100 da bolsa, mais que estímulo, são a condição essencial para a estudante realizar seu sonho: tornar-se uma professora de matemática.
Diante da situação, que não joga apenas com números, mas com vidas, o ministro Marcos Pontes, muito constrangido, anunciou que aguarda a verba destinada ao CNPq para que jovens brasileiros possam continuar seus estudos. Ele sabe que os cortes não impactam apenas num sonho, mas num futuro roubado.
As últimas notícias dão conta que a verba destinada ao CNPq pode ser liberada no próximo dia 20. Resta torcer para que a primavera anunciada seja também a estação em que Ciência e Tecnologia voltará a florescer, depois de um período de secas e podas que têm afetado milhares de jovens brasileiros que representam a inteligência do País a ser reconhecida e valorizada.


