Quem, como eu, leu ‘O Paciente Inglês’ em sua forma original, ou seja, o complexo, inovador e belo texto do canadense Michael Ondaatje, jamais poderia imaginar que, um dia, alguém poderia transformá-lo num filme. Num êxito de bilheteria com nove Oscars, então, nem pensar! Exatamente por se tratar de uma narrativa sinuosa e não-linear, nem por isso menos sedutora, mas muito exigente da atenção do leitor. No entanto, a dupla Saul Zaentz-Anthony Minghella saiu-se muito bem da missão. Leitores e espectadores foram duplamente premiados.
O romance surgiu no mercado no exato momento em que, marginalizada na civilização iconográfica, que adotou como verdade absoluta o falso lema conforme o qual ‘‘uma imagem vale mais do que mil palavras’’, a literatura parecia estar fadada a um impasse. Ou se tornaria uma espécie de confraria do enigma, à qual só teriam acesso os felizes decifradores de códigos linguísticos complexos, gente que jura ter lido Ulisses, de James Joyce, no mínimo na tradução erudita de Antônio Houaiss. Ou se perderia no lixão das listas dos mais vendidos, reproduzidas à exaustão nos suplementos ex-culturais de jornais e revistas e nas estantes das livrarias, onde se elege o baixo instinto como único critério eletivo.
O livro de Ondaatje negou esse impasse em sua própria origem. Seu texto competente exigia um leitor sagaz, mas lhe dava em troca o sabor que a literatura experimental considera um pecado mortal, confundido com a facilidade. Com esse predicado, conseguiu escalar as listas de best seller, embora não tenha atingido seus píncaros, sem deixar de oferecer ao consumidor a oportunidade de racionar sobre o produto digerido. Em sua versão original, a história do moribundo desmemoriado nas mãos da delicada enfermeira nas ruínas de uma casa italiana ofereceu ao leitor contemporâneo a oportunidade de montar um quebra-cabeças virtual, sem usar os sinais luminosos da tela do computador, mas o código mais elementar a que o homem teve acesso na civilização, o velho verbo. Trata-se de um feito. Pois prova que, apesar de tudo, a literatura pode ser viável.
Ainda assim, era difícil imaginar atrás da história costurada com cuidado nos farrapos de memória do piloto salvo dos destroços de um avião abatido no deserto uma aventura capaz de emocionar multidões capazes de pagar ingressos para satisfazer seu apetite. O texto de Ondaatje, embora instigante e delicioso, parecia invertebrado. A dupla Zaentz-Minghella conseguiu dissecá-lo e nele encontrar uma sólida coluna vertebral. Em torno dela, produtor e diretor construíram um dos mais emocionantes, mas, nem por isso, piegas, melodramas da história do cinema. Talvez não seja exagerado comparar alguns momentos interpretados por Ralph Fiennes, Juliette Binoche e Kristin Scott Thomas com as cenas mitológicas de Humphrey Bogart e Ingrid Bergman no melodrama mitológico Casablanca.
Anthony Minghella apostou no charme pictórico do deserto. Foi uma aposta feliz: a beleza irretocável das imagens compensa o rítmo arrastado que o clima da história original obriga o filme a ter. Outro resultado bem-sucedido foi o impacto causado nos espectadores pelo velho romantismo de guerra em cenas de amor impagáveis. Destaco, de memória, duas. O primeiro entre o desmemoriado e sua amante casada, em seu quarto de hotel em Cairo, demonstra de forma cabal que o mecanismo animalesco da exposição genital explícita não pôs fim, ainda, às possibilidades do cinema como criador de tensões sensuais. A contemplação dos afrescos da igreja em ruínas, no interior da Itália, proporcionada pelo sapador indiano à enfermeira canadense, resgatou a capacidade de comunicação sensorial que este universo de incomunicação em que emergimos não foi capaz de eliminar inteiramente.
Tenho lido o romance já há algum tempo e visto o filme recentemente, lembrei-me, ao compará-los, de um conselho que Jorge Amado deu a Rachel de Queiroz, quando a Rede Globo comprou os direitos do Memorial de Maria Moura para produzir uma minissérie ‘‘Venda os direitos, gaste bem o dinheiro e não queira interferir na produção. Nem sequer a veja no ar. Procure esquecê-la completamente, se isso for possível. Ela nada vai ter com seu livro’’, ele disse, áquela ocasião.
O romance sofisticado que virou melodrama de sucesso, de certa forma, comprova esse teorema do velho causeur grapiúna. Um nada tem a ver com o outro. A não ser um grande respeito manifestado em relação ao consumidor em forma de qualidade final. Será que isso não basta? Num mundo em que a pistola de Goebbels foi substituída como critério de seleção cultural pelo tilintar repetitivo da máquina registradora, quando não pelo arroto de satisfação do califa, isso é, no mínimo, um bom consolo.
José Nêumanne, jornalista, escritor e editoralista do Jornal da Tarde, se sentiu, como leitor e espectador, prestigiado pelos autores do romance e do filme.

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