QUALIDADE DE MORTE - Brasil precisa de políticas públicas em cuidados paliativos
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de dezembro de 2010
Carolina Avansini<BR> Reportagem Local 
O envelhecimento dos brasileiros impõe a necessidade de refletir sobre as condições de morte das pessoas que, doentes, não possuem mais possibilidade de serem curadas Atualmente, os idosos perfazem 11% da população, mas a perspectiva é que correspondam a 20% até 2050
Diante desse panorama, é fundamental investir na oferta de serviços em cuidado paliativo, que caracteriza-se por minimizar o sofrimento e melhorar a qualidade de vida das pessoas que não possuem mais perspectivas de cura
Gerente do Sistema de Internação Domiciliar da Secretaria Municipal de Saúde, coordenador médico da equipe de cuidados paliativos do Hospital do Câncer de Londrina, membro do Instituto Paliare de Cuidados Paliativos e vice-presidente da Academia Nacional de Cuidados Paliativos, o médico Luis Fernando Rodrigues denuncia a péssima colocação do Brasil no ranking dos países com melhor qualidade de morte no mundo ''A perspectiva de futuro é de muitas pessoas precisando de cuidado É necessário investir em políticas públicas que fomentem a área ''
O que é cuidado paliativo?
Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), são cuidados direcionados a portadores de doenças crônicas que não têm possibilidade de cura Não é porque a pessoa não vai se curar que ela não precise ser cuidada O câncer é uma dessas situações, mas existem várias outras doenças que também se enquadram nessa característica de progressão rápida e com necessidade de atenção específica
Londrina oferece esse tipo de serviço?
Sim, através do sistema de internação domicilar, da Secretaria Municipal de Saúde, que foi o primeiro serviço criado no município Foi a primeira prefeitura a bancar o serviço de cuidados paliativos, e tem bancado até hoje O Hospital do Câncer tem uma equipe há três anos; e a Unimed, em 2003, iniciou um processo de categorização em atendimento domiciliar na área de cuidado paliativo
Você participou recentemente do Primeiro Seminário de Expansão de Cuidados Paliativos no Brasil, realizado no Rio de Janeiro O que foi discutido no evento?
Um periódico internacional muito conhecido, chamado Daily Economist Unity, publicou um ranking de 50 países avaliados no aspecto ''qualidade de morte'' Nessa avaliação, o Brasil ficou em 48º lugar É um dos piores lugares para se morrer no mundo, porque oferece cuidado paliativo muito ruim Baseado nisso, constata-se uma dificuldade, mas também a oportunidade de fazer crescer o cuidado paliativo no Brasil E o que foi discutido foi justamente isso, as características do País e o caminho para garantir cuidado paliativo de qualidade que resulta em boa qualidade de morte para o nosso País
O que é fundamental para melhorar a oferta de cuidados paliativos no Brasil?
A formação e a manutenção de equipes, o que demanda recursos financeiros Os hospitais não conseguem manter o serviço porque, para oferecer uma equipe multidisciplinar, é preciso prever financiamento, que não está disponível A legislação atual coloca, por exemplo, que os Centros de Alta Complexidade em Oncologia (Cacons), para poderem se credenciar no Ministério da Saúde, precisam ter equipe de cuidados paliativos Só que o Ministério da Saúde não prevê remuneração para o serviço A tabela SUS é escassa com relação a isso, não há linhas de financiamento e a contratualização não é prevista Além disso, é preciso uma capacitação bem feita dos profissionais e uma política de assistência farmacêutica Para oferecer cuidado paliativo de qualidade, é necessário fornecer medicamentos classificados como opióides, como morfina, metadona, codeína E a nossa legislação é extremamente coercitiva nesse sentido, dificulta muito Precisa criar um mecanismo que facilite o acesso das pessoas que têm dor a esse tipo de medicação
Como deveria ser um bom serviço de cuidado paliativo, possível de ser implantado no Brasil?
O básico é você ter uma equipe formada por médico, enfermeiro, assistente social e psicólogo Médico e enfermeiro vão atuar basicamente no controle de sintomas, com uma boa comunicação e informação ao paciente, que precisa saber sobre a gravidade da doença e entender que não vai ser feito nada mais para curar, mas para cuidar Ele tem que saber que a morte está se aproximando e precisa se preparar para isso Baseado nessas informações, entra o papel do psicólogo, que vai dar o suporte emocional Também é preciso ajudar a família a se organizar Pode haver colaboração de outros profissionais, como fisioteraputa, farmacêutico, fonoaudiólogo, terapeuta ocupacional, nutricionista, odontólogo, que podem contribuir para minimizar o sofrimento Depois vem a questão do atendimento farmacêutico, com medicamentos disponíveis E outras condições como automóvel para atenção domiciliar, estrutura de enfermaria, ambulatório Isso dá a conformação de um bom serviço de cuidado paliativo
Como será sua atuação na Rede Internacional de Pesquisas e Tratamento do Câncer?
O convite partiu do Instituto Nacional do Câncer (Inca), porque somos liderança em cuidados paliativos no nosso Estado, na nossa região Minha contribuição é mostrar as dificuldades que enfrentamos e o que fazer para melhorar O grupo de trabalho formado está em busca de vários dados de suporte, como informações demográficas, do sistema de saúde, disponibilidade de opióides A partir disso, vamos traçar uma estratégia de comunicação, principalmente com o órgão maior, que é o Ministério da Saúde, para poder ajudar a fomentar esse tipo de tecnologia, essa política que é tão necessária no nosso País


