A semana promete mais um embate entre governo federal e médicos. Ontem a presidente Dilma Rousseff (PT) anunciou que estudantes de Medicina, de escolas públicas e privadas, terão que trabalhar dois anos no Sistema Único de Saúde (SUS) para obter o diploma. Em linhas gerais, a proposta estabelece que após os seis anos de curso, o aluno terá um registro profissional provisório e terá que prestar serviços na atenção básica durante um ano e depois mais um em serviços de urgência e emergência.
Estes dois anos serão remunerados pelo Ministério da Saúde e serão obrigatórios para estudantes que ingressarem na graduação a partir de 2015. O motivo, óbvio, é colocar mais médicos em atendimento no SUS. Os números, tanto de entidades médicas como do governo, indicam um deficit de profissionais no Brasil. O governo afirma que "além de insuficientes, ainda há uma má distribuição". A afirmação é verdadeira, mas os médicos também têm motivos justos. Baixos salários e falta de infraestrutura necessária são apenas algumas justificativas.
A falta de médicos realmente é um problema, mas merece um debate muito mais aprofundado do que as discussões travadas até agora entre as duas partes. Também é importante abordar a falta de estrutura da saúde como um todo. A má qualidade do serviço público não é "culpa" apenas da falta de profissionais. Muitos municípios sequer contam com hospitais para atender sua população, como mostrou a FOLHA no domingo. Nas cidades maiores, hospitais públicos encaram frequentemente uma rotina de superlotação. Não há leitos suficientes, equipamentos necessários para auxiliar o diagnóstico, pessoas têm que esperar meses e até anos para realização de exames e procedimentos. É preciso reformular a saúde como um todo, desenvolver um programa sério de investimentos e melhoria da atual estrutura. A falta de médicos é apenas uma das pontas. Médicos estrangeiros ou estudantes, sozinhos, não irão melhorar a qualidade da saúde pública no Brasil.

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