O impacto provocado, nos anos 90, pela popularização das tecnologias da comunicação gerou grande ansiedade em torno das chamadas ''profissões do futuro''. Nos pré-vestibulares, nas universidades e na mídia as perguntas se repetem: que caminho trilhar na nova sociedade? Que atividades mais prometem? Mas este burburinho mostra quão superficialmente o assunto é tratado. O ''novo'' em questão traz o ranço da superespecialização, fragmentação de saberes e repetição de conteúdos que há tempos caracteriza nosso ensino de graduação algo que, hoje, parte da comunidade acadêmica e até o MEC tentam substituir pela proposta mais arejada de formação básica por áreas de conhecimento, e diretrizes curriculares em lugar de currículos mínimos. Porém, por hora, só os nomes estão mudando, não a praxe. Isso ocorrerá quando pensarmos não exclusivamente nas profissões, mas na universidade do futuro.
Uma universidade não é um centro de adestramento para o mercado. Contudo, o esquema dos cursos com suas incontáveis disciplinas, créditos e extensos currículos não deixam espaço para o questionamento e para o necessário ''aprender a aprender'' que faz dessa instituição a produtora de conhecimento por excelência de nossa civilização. Dos jovens se exige que memorizem o que é transmitido pelo professor ou já está nos livros. E basta. Inovações em sua área de saber se diluem em conteúdos disciplinares, sem que se estimule o futuro profissional a fazer delas análise mais profunda seguindo, por exemplo, a trilha que levou o pesquisador X à formulação do novo conceito, questionando seus métodos de investigação e chegando às próprias conclusões. Foi assim que, ao longo da história, as grandes universidades colaboraram para o avanço do conhecimento humano?
Tomemos algumas ''profissões do futuro'' e entenderemos o absurdo de tentar adaptá-las aos antigos moldes. Tecnologia de Informática, Ciências da Computação e Engenharia da Computação são carreiras altamente promissoras que sequer existiam no país até os anos 70. Porém, adentramos na era da informação e carecemos de profissionais que garantam o suporte técnico para a sociedade da informação. Mas não só: que sejam criativos e ajudem o Brasil a encontrar sua identidade digital. Seria um desperdício prender esses cursos numa rígida grade curricular. Eles se limitariam a reproduzir ecos do que já foi testado e aceito num campo de possibilidades inimagináveis.
A referência às profissões ligadas à computação tem razão de ser: não são um modismo, refletem uma necessidade real. Contudo o ensino em áreas nem tão novas tem que ser repensado, pois ''mutável'' é o adjetivo que melhor define o mundo atual. O mercado de trabalho oscila mais que as Bolsas, exigindo dos indivíduos flexibilidade e sólida formação básica a fim de que possam navegar por um variado leque de ocupações. A universidade peca ao estreitar as opções dos jovens, obrigando-os precocemente à especialização, que pode ficar em aberto e ser abraçada quando eles estiverem mais seguros de suas aptidões. A extensão e os cursos sequenciais devem também ser incentivados estes sim, em consonância com as urgências do mercado e aos alunos deve ser garantido o direito de voltar às aulas se sentirem chegada a hora de desenvolver nova habilidade.
A mera criação de cursos não é sinônimo para a renovação que o ensino superior requer. Já vimos esse filme: nas décadas de 60 e 70 assistimos a um ''boom'' no setor. Segundo dados da Abmes (Associação Brasileira de Mantenedoras do Ensino Superior), de 93.202 alunos matriculados em 1960, pulamos para 1.377.286 em 1980 (em 1999 eram 2.377.715, de acordo com o último Censo). A urbanização do Brasil nesse período levou à multiplicação dos cursos de Engenharia (então a profissão do futuro); a expansão da fronteira agrícola estimulou a procura pela Agronomia; escolas de Medicina e Odontologia proliferaram, devido à preocupação com a qualidade de vida nos centros urbanos em crescimento; Direito e Administração se tornaram indispensáveis para manter a sociedade funcionando. Mas a prática da graduação não mudou.
As profissões citadas são antigas, mas não imutáveis. Claro que também precisamos dos cursos novos, como Ecologia, afinado com a mobilização mundial para a adoção de políticas de proteção ambiental; ou Engenharia Genética, uma vez que a Medicina está se voltando para a prevenção de doenças a partir do estudo do código genético sem citar as intermináveis discussões sobre clonagem de seres vivos. São exemplos dignos de nota. Aos cursos ligados à computação já mencionados vale acrescentar os sequenciais que desvendam os segredos da Internet e oxigenam mercados ultra-saturados, como Jornalismo e Publicidade.
Como vemos, o sistema de ensino superior se mantém em expansão, mas ela não pode se resumir à criação de carreiras novas ou à inchação de currículos em velhas carreiras. Privilegiar a formação inicial e o ensino do núcleo das ciências por campos do saber, e abrir-se depois às especializações, mantendo a porta aberta para um mundo que nos exige um constante reaprender é dessa universidade, que gera conhecimentos e amplia a visão dos indivíduos para além de suas ambições imediatas, que precisamos. Universidade que não se ocupe apenas em treinar técnicos para ''profissões do futuro'', mas em formar cidadãos para o futuro. Seja ele qual for.


- MAGNO DE AGUIAR MARANHÃO é Conselheiro do Conselho Estadual de Educação do Rio de Janeiro e presidente da Associação Nacional dos Centros Universitários [email protected]

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