As novas relações entre alunos e professores, mediados pelas tecnologias de informação, têm mudado as características do ensino superior. A alta velocidade de acesso à informação, no dia a dia do aluno, o distancia do juízo crítico, e os professores devem estar atentos às essas novas características na hora de educar. O alerta é do especialista em educação Eduardo Godoy Moraes.
Nesta entrevista, o professor aponta uma série de comportamentos dos alunos e educadores que devem ser repensados, para uma dinâmica mais eficiente de ensino. ''O moderno educador não é aquele que discute indisciplina na sala de aula, mas o que se preocupa em seduzir o aluno com o conteúdo de sua matéria. O aluno vive em uma era tecnológica e quer encontrar professores que tenham esse novo discurso e sejam abertos a essas novas ferramentas'', aponta.
Como é trabalhar com essa nova geração de jovens, que é tão ligada em tecnologia e internet?
Essa nova geração internet ainda é estranha para muitos professores e educadores. Um jovem de 18 anos, de graduação, por exemplo, já tem 3 mil horas de internet e 75% desse tempo passa em sites de relacionamentos como o Orkut, o Twitter, o Facebook etc. Ele se dedica pouco à pesquisa e à leitura. O jovem de hoje tem uma relação diferente com a informação, com o cognitivo. Um exemplo: se eu indicar para meu aluno de direito, de 18 anos, um livro escrito em 1972, ele não será seduzido pela redação, que lhe é estranha, que lhe parece alienígena. Não haverá um mínimo de diálogo entre ele e o autor citado. A relação dele com a informação é de alta velocidade e essa característica não exige o raciocínio, o juízo crítico de valores e isso me preocupa muito.
O que fazer para conquistar esses alunos?
O professor deve descobrir o novo: o novo aluno, as novas ferramentas e os novos discursos. Precisamos buscar novas linguagens que resultem em um novo universo de entendimento. Se o discurso do professor for o mesmo de 10 anos atrás, não haverá sinestesia na relação ensino-aprendizado. Todos perdem tempo. Fica uma relação estéril.
Qual o papel das novas tecnologias no ensino superior? Os estudantes de instituições públicas têm acesso a elas?
Um papel de ligação entre o aluno e o aprendizado. As novas tecnologias espelham um mundo em ''tapete'', um mundo mais horizontal, onde a inserção do alunado é mais em atacado, mais macro, bem mais a sua nova ''roupagem''. Nos últimos 10 anos o ensino público recuou, em relação ao ensino privado, por questões orçamentárias. As privadas estão bem à frente.
Os professores mais antigos estão preparados para essa era tecnológica do ensino?
Toda mudança incomoda. Mexe na zona de conforto. Conheço professores que ainda estão nos fichamentos de aula, à margem da velocidade da educação do século XXI. Conheço outros que estão bem antenados com as mudanças e às novas realidades. O E-book, livro digital, para ser lido no computador, por exemplo, que já é realidade, ainda é pouco usado por nós professores. Autores modernos que desafiam o tradicionalismo doutrinário ainda são poucos discutidos nas academias.
Como deve ser o educador do futuro?
O educador do futuro é aquele que quer discutir o novo, pautado em novos discursos. É aquele que se preocupa com a qualidade da informação e da sua aula. Ele sabe que seu aluno permanece em sala pela sedução e o charme da sua matéria, da sua disciplina. O educador do futuro é aquele que não mais discute indisciplina, mas sim suas falhas e erros como professor, o que permite o tal entra e sai em sala de aula. O moderno educador se preocupa com a qualidade de sua avaliação, pois sabemos que avaliamos mal. Geralmente o professor avalia, o que ele sabe, e não o que o aluno aprendeu ou deixou de aprender com ele. Ou seja, em que o próprio professor deixou a desejar.
As características do aluno atual - que usa piercing, tatuagem, tribos - geram distanciamento entre ele e o professor?
O aluno do século XXI é tribal. Multifacetado em comportamentos. Estamos ainda presos no estético e deixamos o ético à mercê dos preconceitos. Precisamos nos descolar dos discursos passados e buscar entender o contexto histórico do educando, para melhor compreendê-lo. Cito o filósofo e educador canadense Marshall McLuhan: ''será que estamos preparando nossos alunos para um mundo que existe, ou para um mundo que não existe mais?''


Relação do aluno com a informação é de alta velocidade


Conheço professores que ainda estão nos fichamentos de aula

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