Publicidade Drogas
PUBLICAÇÃO
domingo, 15 de março de 1998
Joel Samways Neto 
A televisão tem mostrado, recentemente, os novos curta-metragens publicitários ligados à campanha de prevenção contra o uso de drogas. Belíssimos. Atrizes globais protagonizam os filmes, glamourosas como sempre. Roteiro bem feito, texto moderno, montagem de primeira, ilustração espetacular, maquiagem nota dez, figurino internacional, um primor de direção. Num deles, Cláudia Ohana é a vilã sedutora chamada Crack, que, com gestos provocantes e olhares lânguidos, convida suas vítimas a experimentar a felicidade embutida em seu produto. De repente, num crescendo mezzo forte atroppo forte, feito Bolero, de Ravel, as promessas de paraíso, a pronta-entrega vão se desfazendo, a bela Ohana vai se transfigurando, virando um zumbi saído da Noite dos mortos-vivos. A câmera nervosa, os flashes, os cortes, a superposição de imagens, têm se a sensação de que é um outro videoclipe do Michael Jackson, da linha horror. Todavia, artístico, muito artístico. Estético. Brilhante... Espere aí, espere aí! Não era pra ser publicidadecontra as drogas?
Discutível, no mínimo, o valor conscientizador - deoposição - ao uso de drogas, a partir de iniciativas publicitárias assim. Parece que os ilustres publicitários não querem perder de vista o mercado, a competição, os concursos de fim de ano (quando a patota dos gênios da publicidade nacional lança confetes, aplaude, mima, premia,interna corporis). Só isso poderia explicar um trabalho tão sofisticado de criatividade em cima de um tema tão concretamente trágico.
Penso que a arte publicitária, a serviço mercenário da sociedade de consumo, deveria ser levada às barras dos tribunais da consciência coletiva, e que defendesse sua arrogante ousadia. Que se defendesse das acusações de pedagogos, psicólogos, sociólogos, psicanalistas sociais, psiquiatras, especialistas em mídia e comportamento humano... Porque essa história de que telinha e telão são boas válvulas de escape, de descompressão, do homem moderno, ainda não está devidamente pacificada. Se estivesse, os países do Primeiro Mundo não estariam dando a maior prensa na indústria cinematográfica, notadamente a holywoodiana, por estarem glamourizando, por exemplo, o cigarro, droga lícita que causa dependência psíquica e câncer.
Há alguém aí pesquisando o efeito desses efeitos especiais sobre a mente dos adolescentes? É conscientizador usar de uma linguagem que desperta nos adolescentes tanto interesse, curiosidade de ver e fazer, acerca dessas taras tarantinas?
De um modo geral, os adolescentes, de todas as classes sócio-econômicas, quando vêem uma revista, uma fotografia, um filme, ou ouvem uma música, tratando de sangue, violência, sexo e drogas, dizem: - Animal! Que massa! Botou pra...! Ou seja, se a intenção era provocar reflexão, dançou. Se era provocar medo, dançou também. Talvez o que esse tipo de publicidade possa conseguir, além de prêmio e prestígio ao seu autor, seja despertar no público-alvo o desejo de conhecer o objeto da velada censura. Seria o mesmo que anunciar um sorvete delicioso, refrescante, crocante, picante, em cores quentes e formas envolventes, um êxtase para o paladar... Só que tem um probleminha: causa diarréia de bico.
No curta-metragem aqui tratado, o filme termina com uma pergunta a respeito da opinião do telespectador, se ele gostaria que a campanha prosseguisse.
Que a campanha prosseguisse, obviamente sim. Agora, não com essa mentalidade estético-narcisista de publicitário. Se for para usar da concessão pública que é o direito de divulgação de som e imagens, via televisão, que seja para efetivamente produzir-se um resultado pedagógico. Nada desses curta-metragens de arte pela arte. Que adotem então a linha do documentário, que, sem deixar de ser artístico, mantém firme o compromisso com a realidade.
Repito, repito, repito: querem conscientizar de verdade contra o uso de drogas? Façam um filme dos pacientes dos hospitais psiquiátricos, na ala dos dependentes de drogas. Façam entrevistas com adolescentes que mal conseguem falar e andar. Mostrem o jovem em pleno surto psicótico. Mostrem uma pessoa em plena síndrome de abstinência. Mostrem o custo desses tratamentos, dos honorários médicos aos medicamentos. Mostrem o custo afetivo familiar, o desgaste, o sofrimento, das vítimas de drogas e dos que estão ao redor. Isso funciona como funcionaram os correspondentes de guerra que estiveram no Vietnã, gerando comoção na opinião pública mundial com seus relatos, fotos e imagens.
Funcionaria mais do que essa fogueira de vaidades autoral-publicitárias.


