PT topa tudo
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 11 de novembro de 1997
José Nêumanne 
A vitória da oposição argentina nas recentes eleições parlamentares e parciais tem levado a esquerda brasileira, particularmente o PT, a um equívoco de interpretação e a uma constrangedora confissão sobre sua verdadeira natureza. Equivocada é a conclusão de que, se Carlos Menen, que se diz invencível, perdeu, Fernando Henrique, que é considerado favorito, também deve perder. Para evitar a reeleição do presidente, o PT topa tudo, inclusive uma oportunista aliança eleitoral com o PMDB paulista, controlado pelo ex-governador Orestes Quércia. Como se vê, o neopragmatismo petista está mandando a ética às favas.
É possível, realmente, tirar algumas lições da derrota do governo na Argentina. Há, em primeiro lugar, que se considerar o demérito do derrotado. O governo descobriu que não basta comemorar o êxito da economia para ganhar a eleição. A mistura entre arrogância e corrupção - principalmente quando vem acompanhada de altas taxas de desemprego - produziu o caldo de cultura adequado para provocar a repulsa do eleitor. As pesquisas de opinião públicas divulgadas no Brasil não dão nenhum indício de insatisfação do eleitorado com o governo, contra o qual não há acusações de corrupção nem de arrogância que possam ser comparadas com as registradas na Argentina às vesperas do pleito de lá.
Dessa forma, se não se pode dizer que Fernando Henrique já garantiu sua reeleição, o que seria uma temeridade, também seria loucura imaginar que o malogro eleitoral de seu colega argentino possa trazer alguma desvantagem automática para o brasileiro na eleição de 1998. Até por haver também a ser pesado no caso da disputa argentina o mérito do vencedor. A oposição argentina venceu porque teve a esperteza de se unir, de uma forma com a qual a brasileira ainda não pode sonhar, e a humildade de aceitar a competência da política econômica oficial como um fato consumado, contra o qual ninguém ousou levantar um dedo. Tal política é tão imexível que já virou uma espécie de cláusula pétrea.
As duas lições parecem ter sido aprendidas pela oposição de esquerda em geral, e pelo PT em particular, mas apenas pela metade. Todos os pretendentes ao trono de FHC dizem defender a estabilização da economia, mas somente em teoria, pois na prática as bancadas de seus partidos boicotam as reformas constitucionais, sem as quais o real forte corre o risco de enfraquecer. O eleitor não é bobo e percebe isso.
Quanto à união de todas as tendências contra o governo, ela não passa de miragem. Apesar de declarar sempre que só uma ampla coligação de centro-esquerda pode levar a oposição ao poder, o PT tem rejeitado, sistematicamente, aliar-se ao PPS de Ciro Gomes. Ainda assim, o eterno pretendente do partido à Presidência já admitiu se compor com o PMDB de São Paulo, sob o controle do ex-governador Orestes Quércia, cuja carreira não tem sido um bom exemplo em matéria de ética.
Ciro é inaceitável para o PT, porque são evidentes suas ambições presidenciais, enquanto Quércia, sim, é palatável, porque se limitará a disputar o governo do Estado de São Paulo. Não importa ao PT se o perfil do primeiro seja mais adequado à imagem de fiscal de ética pública, que o partido de Lula sempre se atribuiu, enquanto as práticas do segundo não possam ser aceitas por qualquer cidadão que conheça as raízes etimológicas da palavra república (do latim, coisa pública).
Ao mostrar que topa tudo pelo poder, substituindo nobres conceitos éticos pelo critério mafioso, segundo o qual o inimigo de meu inimigo é meu amigo, o PT prova não ser melhor do que ninguém. Nem mesmo que o próprio Quércia, cujos defeitos são públicos e notórios, mas entre os quais não se cataloga a jactância de servir de exemplo de honestidade nem de ser palmatória do mundo e fiscal da ética alheia.


