Em artigo brilhante no ‘‘Jornal do Brasil’’ do dia 16 de junho, o filósofo e professor da PUC-RJ Leandro Konder, ao analisar a trajetória do PT e sua possível relação com o poder, refere-se ao conceito político de ‘‘direita’’ e ‘‘esquerda’’. Remete-nos à Assembléia da Revolução Francesa, onde os deputados que exigiam mudanças sociais mais rápidas e profundas no combate às desigualdades sentavam-se à esquerda e, à direita ficavam aqueles que queriam a preservação das condições vigentes e só aceitavam mudanças graduais e reguladas pela classe dominante. De lá para cá, esquerda e direita tornaram-se tendências que expressam interesses distintos, dicotômicos.
O PT sempre foi esquerda. Nascido dos movimentos populares, articulado nos meios sindicais, reconhecido na intelectualidade pelo compromisso com a justiça social, o combate à exploração econômica e a repulsa ao autoritarismo, o partido construiu e consolidou sua história como representante dos de ‘‘baixo’’, no dizer de Konder.
São 21 anos marcados por lutas, derrotas e vitórias que mudaram o quadro político brasileiro, mudando, também, para se utilizar do método de análise dialética, as formas de atuação do partido. Da luta intransigente contra a ditadura à demonstração inequívoca da capacidade de governar na adversidade, o PT nunca abriu mão de seu objetivo maior: a construção de uma sociedade baseada na justiça social, com distribuição de riqueza e prevalência dos interesses humanos.
É a referência teórica no método marxista de análise da história que garante ao partido ampliar a prática na construção do novo, e, como Marx, rechaçar a dimensão da utopia que se propõe a funcionar como um programa político, exacerbando crenças apaixonadas, atuando com intolerância e suportando mal os obstáculos às suas pretensões.
Assim como nos municípios e nos Estados que governa, o PT se propõe a governar o Brasil com um programa realista e factível. Sem promessas mirabolantes ou messiânicas, sem lançar mão de favores e clientelismo. O esboço de programa de governo, apresentado pelo Instituto da Cidadania, ONG dirigida por Lula, a ser discutido e finalizado no partido, com a participação de setores organizados da sociedade, dá a dimensão da atuação do PT no poder: mesmo considerando os limites que impõe a realidade político-econômica, o partido implantará seus programas, radicalizando nas ações que mudarão a linha condutora de governo para o social, fortalecendo, desta forma, um dos caminhos que levarão à construção de uma nova sociedade.
A política econômica patrocinada pela coalização de centro-direita que sustenta o governo FHC, cujo objetivo central não é a condução responsável das finanças públicas ou a estabilidade monetária, mas a adesão irrestrita da economia às movimentações do capital financeiro internacional, bem ao entendimento do sociólogo sobre a natureza associada e dependente do capitalismo brasileiro, não trouxe, apesar do ‘‘sacrifício’’ anunciado e justificado ao povo, os resultados prometidos no médio e longo prazo: retomada do desenvolvimento, crescimento da economia, mais empregos e melhores condições de vida. Trocando o fim pelos meios, FHC fez do Plano Real seu maior cabo eleitoral em 1994, prometendo o paraíso que não se realizou.
O aumento da miséria, a exclusão social, o empobrecimento da população mudaram radicalmente a conjuntura política do País, tirando das elites a credibilidade de dirigentes e concretizando o anseio popular por mudança.
Pela história e respeito que inspira, pela coerência nas propostas e firmeza na ação, o PT é hoje a alternativa reconhecida pela maioria da população para ser governo. Lula ultrapassa os 35 pontos nas pesquisas e é o candidato com menor rejeição. Não é marketing, área na qual, aliás, o partido, desde o seu nascimento, sempre foi reconhecido como um dos mais criativos. É, sim, fruto de um longo processo de mudanças na sociedade, resultado da democracia pela qual o PT brigou e ajudou a construir, que permite ao povo reconhecer a falência do projeto das classes dominantes e a possibilidade de um programa alternativo de governo para a construção de um novo país.
Através das administrações de Estados e municípios, que o partido recebeu falidos e desmontados pela corrupção e incompetência das oligarquias de sustentação do projeto do governo central, o PT mostrou que é possível, com muita responsabilidade e equilíbrio fiscal, inverter prioridades, investir no social e, com programas que contrariam a lógica do sistema dominante, como os de renda mínima, orçamento participativo, garantir a inclusão política e social da população. São as administrações petistas as responsáveis por aumentos constantes nas arrecadações, por melhor desempenho fiscal e que têm mais programas reconhecidos e premiados por instituições nacionais e internacionais.
A ascensão do PT como possibilidade concreta de poder está assustando muita gente. O partido não sai dos noticiários. O que é normal em uma democracia. Não surpreende, portanto, o desespero ante a mudança, que faz alguns sociólogos perderem o referencial das idéias, dos projetos em disputa e, por ausência de argumentos, despolitizar a discussão enveredando para ataques e depreciações pessoais, bem ao estilo da velha política oligárquica.
Ser de esquerda ou de direita é referenciar-se em programas capazes de corresponder aos anseios, às aspirações e às necessidades daquela parte da sociedade que se sente comprometida ou identificada, diz Konder. Não é ser da equipe de heróis ou das quadrilhas de bandidos. Entendidas assim, as posições externadas na política devem merecer o debate sustentado nas idéias e propostas e não na desqualificação de seus representantes ou interlocutores.
Dentre todas as mudanças preconizadas, a vitória eleitoral do PT trará, com certeza, um dos melhores efeitos para a sociedade brasileira: a consolidação do processo democrático com a alternância no poder.
- GLEISI HELENA HOFMANN, advogada, é filiada ao PT, e foi secretária de Reestruturação Administrativa de Mato Grosso do Sul no governo Zeca do PT
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