O Partido dos Trabalhadores vive um grande dilema. Desde os primórdios de sua fundação, no final dos anos 70, sua conduta é pau tada pelo discurso em prol da moralidade pública, do combate à corrupção, da probidade administrativa, dos valores éticos na política, além é claro, da defesa intransigente de um modelo econômico e social mais justo e menos excludente.
No Congresso, a postura dos parlamentares não é diferente. Mas uma verdadeira bomba, tipo nitroglicerina pura, pode explodir no colo do governador do Rio Grande do Sul, Olívio Dutra, cujas consequências ninguém sabe ao certo aonde vão dar. Trata-se da ligação entre o governo e o jogo do bicho. O mais grave é a existência de um CD gravado que comprova a conversa entre um dirigente do partido e o então chefe de polícia, onde o primeiro insinua ao segundo que seja tolerante com a contravenção.
A questão agora é saber que tipo de encaminhamento o partido dará a solução do caso. Durante o governo do pedetista Leonel Brizola, no Rio, em 1982, havia não apenas uma tolerância em relação aos bicheiros, mas uma harmoniosa convivência de ambas as partes. Mas justiça seja feita: o jogo, ou seja, o acordo, era às claras. Pesam ainda contra o PT, denúncias de que parte dos recursos que subsidiaram a campanha ao governo do Estado, em 1998, teria sido financiada pelos bicheiros.
A questão posta também dá aos petistas a oportunidade de mostrar toda a coerência entre palavras e ações. Neste imbróglio, o que menos importa discutir são os aspectos jurídicos em relação ao jogo, se deve ou não ser legalizado. Parte-se do pressuposto que é ilegal e toda qualquer decorrência é contravenção.
No caso do jogo do bicho, há indícios, não apenas no Rio Grande, mas em todo o Brasil, da sua ligação com a corrupção policial, lavagem de dinheiro, homicídios, narcotráfico, prostituição, enfim, uma rede de irregularidades. Daí a necessidade imperiosa do PT em apurar a verdade e punir os culpados.
Como é de praxe, os dirigentes argumentam que a CPI da Segurança Pública, que já tramita na Câmara de Vereadores de Porto Alegre, ''não encontrou nenhuma prova de irregularidade''. Ora, a ingenuidade não chegaria a ponto de se apresentar a uma comissão oficial documento que incrimina os denunciados. O ex-senador Jader Barbalho, que renunciou ao mandato para não ser cassado, também mostrou inúmeras certidões do Banco Central em que, sob sua ótica, comprovavam sua inocência.
O fato em si toma proporções avantajadas justamente pela postura do partido ante os escândalos cada vez maiores que pipocam do Oiapoque ao Chuí, quando exige definições claras e transparentes sejam do Congresso, do Poder Executivo e até mesmo do Judiciário. Além disso, o candidato petista Luiz Inácio Lula da Silva mantém-se, segundo as pesquisas de opinião pública, na dianteira da corrida sucessória à Presidência da República.
O que o PT não pode é dizer que as críticas e acusações são armadilhas políticas para desestabilizar a campanha de Lula. Aliás, o prefeito de Porto Alegre e também petista, Tarso Genro, afirmou que isso é parte do jogo democrático: e ''nós'' o partido ''tivemos comportamento semelhante em outras oportunidades''.
O que se espera do PT, como de qualquer outra agremiação política, é que se faça uma auto-avaliação crítica. Não se exige a instauração de uma inquisição partidária nos quadros internos, mas simplesmente que os fatos sejam apurados e a verdade venha à tona. O Partido dos Trabalhadores muitas vezes se arvorou da condição de paladino da moralidade e da ética, e que agora pode sentir na carne que a fraqueza é uma inerência à condição humana.
O discurso petista sempre foi e continua sendo um alento, principalmente aos jovens, na defesa dos valores que devem reger a vida pública. O momento é propício para que dê mostras à sociedade que seu discurso político é muito mais que um catálogo de boas intenções.


- RENÉ RUSCHEL é jornalista e economista em Curitiba
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