As investigações em curso sobre a morte do prefeito de Santo André, Celso Daniel, ainda estão confusas, mas já apontam para uma conclusão preliminar: Celso não foi uma vítima aleatória, os autores de seu sequestro e execução escolheram com precisão o alvo que desejavam. Essa conclusão, combinada com a divulgação de ameaças recebidas por prefeitos e parlamentares do PT, trouxe à tona na imprensa a versão de que o crime teria sido obra de uma organização extremista de esquerda, autodenominada FARB.
A série de atentados sofridos por integrantes do PT não parece mesmo ser fruto da coincidência. Entretanto, as motivações apresentadas para a perseguição sistemática a políticos do PT carecem de base concreta. De fato, soam falsas, por motivos bastante evidentes.
A carta enviada a prefeitos e parlamentares do PT nem de longe lembra qualquer manifesto de esquerda. Sob esse prisma, não resiste à menor análise de conteúdo ou mesmo de linguagem. Ao reivindicar a autoria da morte do prefeito de Campinas, essa suposta organização demonstra desconhecer a identificação que Toninho possuía com as correntes mais críticas do partido. Além do mais, é inegável que qualquer organização desse porte não teria o PT como alvo preferencial. Seria mais lógico - mas nunca justificável - que atentasse contra políticos de agremiações conservadoras.
No mundo todo, o que motiva a prática de atos de terrorismo e ódio como os que ficaram caracterizados nos crimes contra os prefeitos do PT, é sempre a impossibilidade de expressão política institucional por parte de grupos minoritários. Por isso, em regimes políticos autoritários, ou em países nos quais o ordenamento institucional impede a organização partidária do amplo espectro de visões políticas que caracterizam a sociedade contemporânea, existem mais chances de que em algum momento se assista à ação de grupos radicais.
Decididamente, este não é o caso do Brasil. Com todos os problemas que são comuns à maioria dos países da América Latina, o Brasil trilhou um caminho bem sucedido na construção de uma ordem política democrática. Falta-nos ainda estender a cidadania a todos, garantindo a qualquer brasileiro o direito a uma vida digna, livre das agruras da miséria. Mas, mesmo assim, estamos longe de uma configuração política propícia à existência de grupos paramilitares.
A forma manifestamente violenta com que foram abordados e os requintes de crueldade empregados na execução dos prefeitos do PT indicam a marca do crime organizado na origem dessas mortes. A polícia paulista tem evitado, mas deveria empenhar-se numa linha de investigação que esclareça as causas pelas quais o crime organizado está perseguindo e matando os políticos do PT.
No exercício de seus mandatos, os políticos petistas têm protagonizado um combate sistemático a essas organizações e à corrupção na qual se escoram. Parlamentares do PT participaram ativamente, tanto na esfera federal quanto nas estaduais, das CPIs que apuraram as raízes do narcotráfico, do roubo de cargas e das várias formas de crime organizado que crescem nas grandes cidades. Por sua vez, os prefeitos assassinados haviam instituído em suas administrações secretarias especiais com a tarefa de combater a violência urbana, importunando as quadrilhas que agiam sob a complacência do sistema de segurança paulista. Em Embu, o prefeito petista que escapou de um atentado a bomba notabilizou-se por ter denunciado a corrupção na Câmara Municipal, quando ainda exercia o mandato de vereador.
A existência de uma organização criminosa atuando com o intuito de ameaçar e matar os políticos do PT parece algo plausível. Afinal, alguém escreveu e enviou as cartas ameaçadoras. Mas, diferentemente do que alegam seus participantes, há indícios fortes de que sua origem esteja ligada à associação existente entre o crime organizado e fatias corruptas do Estado brasileiro. Por isso, a virulência das ações, a leniência da polícia na apuração dos crimes, a complacência dos políticos governistas.
A ser confirmada, a existência de tal organização não constitui uma ameaça apenas ao PT, mas a toda a sociedade brasileira. Compete aos governos do PSDB em São Paulo e no Brasil a elucidação desses crimes e o combate a seus autores. Quanto ao PT, continuará trilhando seu caminho, na construção de uma ordem democrática, com justiça e paz para o povo brasileiro.
RODNE DE OLIVEIRA LIMA é professor universitário e vice-presidente do PT em Londrina

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