PT, das urnas ao divã
PUBLICAÇÃO
domingo, 22 de dezembro de 1996
Ruy Fabiano 
O PT vive instante de intensa disputa interna entre suas numerosas facções. Entre maio e junho do próximo ano, o partido fará eleições para renovação dos diretórios municipais, estaduais e nacional. Moderados e radicais se articulam em busca do comando.
Lula, cujo grande mérito foi o de ter sido, desde a fundação do partido no início dos anos 80, o seu traço de união, já não é um personagem acima do bem e do mal. Já se questiona sua liderança e, sobretudo, sua condição de presidenciável incontrastável do partido.
A grande ebulição decorre não exatamente do calendário eleitoral, mas do ambiente de crise existencial em que ocorrerá. O PT vive sua pior crise de identidade desde sua criação. Os dogmas que nortearam sua ação e pregação política estão desacreditados, inclusive internamente. O fiasco nas eleições municipais funcionou como uma espécie de gota dágua. As principais lideranças entraram em conflito. A campanha paulista foi emblemática.
Luiza Erundina, antes de ser derrotada pelo malufismo, já o havia sido pelo próprio Lula, que sabotou sua campanha e inibiu a ação da militância petista, o grande trunfo do partido nas eleições. Erundina pregou a necessidade de alianças partidárias para que o PT governe, admitindo mesmo parcerias com partidos mais conservadores como PMDB e PSDB. O seu companheiro de chapa, Aloisio Mercadante, saltou nas tamancas, desautorizando-a a falar em nome do partido. Ali começou a derrota do PT. Lula e Mercadante, que estão mais próximos do discurso dos moderados, tentaram filtrar as pressões dos radicais sobre Erundina. Se eles não falassem, criticando-a, poderia ter sido pior, pois os radicais estavam dispostos a pedir a cabeça da ex-prefeita considerando-a traidora dos princípios do partido. A cabeça acabou sendo entregue, embora a prazo, no segundo turno.
Hoje, passadas as eleições, Lula sustenta discurso bem parecido com o de Erundina. Tem dito que o grande desafio do PT, em 98, é apoiar um candidato de fora, que se disponha a defender um programa de combate ao desemprego e pela retomada do desenvolvimento. Pode ser alguém de outro partido ou alguém fora do mundo partidário, uma personalidade do mundo acadêmico, sindical ou artístico. Lula já admite até candidatar-se apenas a deputado federal.
O que ele ainda não admite é a hipótese de vir a ser substituído pelo prefeito de Porto Alegre, Tarso Genro, a liderança petista emergente mais elogiada nos últimos tempos (até Fernando Henrique o elogiou) e a que mais se qualificou a assumir postos em nível nacional. Mas isso é outra história, à margem da história.
O fundamental é que, após tantos reveses e conflitos internos, o PT prepara-se para virar uma página de sua história, simbolizada pela ação oposicionista obstinada e compulsiva que não poupa seus próprios governantes - que o digam Victor Buaiz e Cristovam Buarque.


