Curitiba - A Agência Nacional de Saúde Complementar (ANS) estuda novas diretrizes para a ampliação da cobertura dos planos de saúde para internações, consultas e demais tratamentos na área da saúde mental. Se aprovadas, entram em vigor a partir de 2010. A resolução atual possui diversas limitações ao usuário.

Hoje, para atendimento psiquiátrico, o plano deve custear pelo menos 30 dias de internação por ano. No caso de portadores de intoxicação ou abstinência provocadas por alcoolismo ou outras formas de dependência física, a obrigatoriedade cai para 15 dias. São liberadas, no máximo, 12 consultas psiquiátricas por ano.

A FOLHA conversou com o psiquiatra e diretor do Hospital Nossa Senhora da Luz de Curitiba, Dagoberto Hungria Requião, para saber sobre os procedimentos necessários para um tratamento adequado ao paciente de saúde mental.

Qual o maior desafio do doente mental?
Há um problema sério em relação à saúde mental que é o estigma e o preconceito. Hoje o maior desafio é lidar com isso. Não só o paciente e a família, mas os próprios profissionais da área. Quando começa uma alteração em alguém dentro do circuito familiar, os parentes demoram para aceitar e tomar providências. Começa uma manifestação de negação da existência da alteração de comportamento. Por causa do preconceito as pessoas acham que aquela não é uma situação passível de tratamento. Isso gera o avanço da doença e a recuperação é mais demorada, pois a intervenção se torna complexa.

Qual o motivo da cobertura dos planos de saúde para atendimentos desse tipo ser limitada?
Há uma tendência de achar que o problema de saúde mental não tem solução, o tratamento é feito em base aleatória e não tem fundamento científico. Então os planos de saúde evitam intervir. É uma falha brutal de conhecimento. Saúde mental tem o mesmo índice de recuperação do que diabetes, hipertensão arterial, entre outras. O médico psiquiatra é muito indagado se a doença tem cura, como se a psiquiatria tivesse que curar o paciente para a sociedade não se preocupar. Você não pergunta para um cardiologista se a hipertensão tem cura, o paciente sabe que vai tomar remédio para o resto da vida. Qual o motivo da doença mental ser questionada sobre cura? É uma doença que incomoda.

A que se deve esse incômodo por parte dos profissionais e da sociedade?
Existe a ideia que o melhor é afastar o doente mental. Por isso os hospitais psiquiátricos antigos eram fora da cidade. A realidade hoje é que existem condições melhores de estabelecer um diagnóstico psiquiátrico. Foram criados medicamentos fundamentados em pesquisas sobre o funcionamento cerebral. Mas a doença não pode ser só caracterizada como alterações químicas no cérebro. Ela também envolve vulnerabilidades, pressões, fatores estressantes que interferem no equilíbrio do indivíduo. Também deve ser levado em conta o comprometimento hereditário. Pais alcoólicos têm 25% mais chances de ter um filho com depressão. É um índice alto. Como hoje a patologia psiquiátrica é melhor entendida, não fica só na mão do psiquiatra o tratamento. Trabalhamos com uma equipe interdisciplinar. Temos serviço social, psicologia, terapeuta ocupacional, musicoterapia, pois além da intervenção é necessário ressocializar o indivíduo.

Qual é o tempo de internação indicado para um paciente de saúde mental?
Se o indivíduo corre risco de morte e gera risco para outras pessoas, o indicado é que seja internado em um hospital especializado durante o menor prazo possível. A média do Hospital Nossa Senhora das Graças em 2000 era de 95 a 102 dias. Hoje a média é de 29 dias. Melhorou a condição da equipe e existem medicamentos mais efetivos.

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