Psicologia, saúde e interdisciplinaridade
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 22 de setembro de 2009
Clovis Eduardo Zanetti 
O Sistema Conselhos de Psicologia definiu 2009 como o ano temático da Psicoterapia no Brasil. Esse projeto consiste em realizar encontros e debates por todo o país, com o objetivo de discutir o exercício da psicoterapia e definir os parâmetros mínimos para a atuação da categoria na área. Segundo Henrique Rodrigues, psicólogo conselheiro do Conselho Federal de Psicologia, é ''de suma importância o debate e a produção de referências que forjem cada vez mais um psicólogo preparado e reconhecido socialmente como um profissional de psicoterapia qualificado ética e tecnicamente. Mas principalmente que consigamos mobilizar o máximo de psicólogos para que tenhamos um debate amplo, democrático e produtivo''.
Em Londrina, com o apoio do Conselho Regional de Psicologia (CRP-08), teremos a realização de um Ciclo de Palestras em Psicologia Hospitalar, nesta sexta-feira, que irá discutir um dos eixos norteadores do ano temático: a interdisciplinaridade.
A produção de referências sobre interdisciplinaridade nos hospitais e sistema de saúde é fundamental para que se possa dimensionar rotinas, projetos e relações de trabalho em prol da qualidade dos atendimentos. A prática interdisciplinar não é uma orientação que vem de fora e sim uma construção que se produz a partir da própria experiência das equipes. Pressupõe um amadurecimento prático, ético e conceitual, pois implica que cada especialista seja capaz de transcender as fronteiras de sua área, abandonando a segurança e o conforto de sua especialidade e se pôr a escutar outros discursos, o que acaba pondo questões e limites ao seu próprio campo de trabalho.
É também da própria experiência multiprofissional manejar conceitos que podem ser reconhecidos como transdisciplinares, ou seja, que têm origem em determinadas especialidades, mas que produzem consequências em outros domínios. Os conceitos de depressão e angústia, por exemplo, que têm origem na psiquiatria e na psicanálise, produzem consequências práticas na cardiologia, na endocrinologia, nos cuidados de enfermagem, etc.
A presença do psicólogo tem uma contribuição fundamental para o trabalho interdisciplinar, pois permite transmitir e sustentar junto às equipes, tanto a escuta interdisciplinar, como a escuta do próprio paciente na posição de sujeito como instrumento clínico e terapêutico valioso. Esta escuta específica, que permite à produção deste giro nos discursos reposicionando o paciente do lugar de objeto a posição de sujeito, traz consequências positivas que atravessam outros domínios terapêuticos, facilitando o envolvimento do sujeito em seu tratamento.
No dia a dia dos hospitais e demais instituições de saúde, as situações clínicas são complexas, uma cirurgia de grande porte, um internamento prolongado, quadros clínicos que envolvem dor, separações e perdas ou estão associados a mais de uma doença, exigem o trabalho articulado de vários profissionais (médicos, enfermeiros, psicólogos, assistentes sociais, fisioterapeutas, nutricionistas), todos envolvidos num objetivo comum que é oferecer prevenção, diagnóstico e tratamento aos problemas de saúde.
No entanto, a existência de equipes multidisciplinares por si só não garante a qualidade dos atendimentos, pois a falta de articulação e diálogo entre as especialidades repercute numa fragmentação e baixa eficiência dos serviços. Diferente da multidisciplinaridade, que apenas agrega áreas distintas lado a lado sem interação alguma entre si, a interdisciplinaridade, por sua vez, tem se organizado como uma atitude capaz de superar a fragmentação dos serviços articulando práticas específicas numa direção compartilhada.
CLOVIS EDUARDO ZANETTI é psicólogo, coordenador da Comissão de Psicologia Hospitalar do Conselho Regional de Psicologia, subsede Londrina, e coordenador do Serviço de Psicologia e Psicanálise do Hospital do Coração de Londrina


