Os psicanalistas se chocam com essa nova interpretação dos sonhos, proposta pela neurologia. Tanto os membros da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP), que bebe na fonte freudiana clássica, quanto a linha lacaniana criticam veementemente qualquer tentativa de se controlarem os sonhos.
Para o psicanalista Romildo do Rêgo Barros, membro do Conselho da EBP, o sonho não aumenta e nem diminui o espaço cognitivo. Por ser a forma mais direta de expressão do inconsciente, tentar controlá-lo provocará um esvaziamento do seu sentido.
''Essa proposta me faz pensar na frase de John Lennon. Com uma máquina que é capaz de dirigir o sono, só podemos dizer que o sonho acabou''.
Ele diz que tentar compreender o sonho em curso seria a instauração da angústia permanente. E critica o tratamento científico que um aparelho desse tipo recebe.
''Como o inconsciente poderia se manifestar para dizer o que tem que ser dito? Controlar o sonho é tentar aprisionar o desejo, que é aquilo que não pode ser aprisionado. O sujeito é, de certa forma, um exilado no mundo. Se a ambição da ciência for unir perfeitamente o sujeito e o mundo, vão surgir patologias, doenças psíquicas, cada vez mais graves. Isso me parece um pesadelo.
Censura - Professor da PUC e do Instituto de Medicina Social da Uerj, o psicanalista Carlos Alberto Plastino afirma que a proposta do sonho lúcido em si é contraditória.
''Na medida em que parte de sua consciência está ativada, é impossível atingir a originalidade do sonho. Então, o que ocorre à noite deixa de ser sonho e passa a ser um exercício de imaginação'', diz ele, lembrando experiências realizadas na Europa na década de 70. Os ''sonhos acordados dirigidos'' eram experiências psíquicas em que se propunha um tema ao indivíduo para que tecesse uma história, em geral, com estrutura mitológica.
Esse mecanismo apresentava um certo nível transformador porque o exercício fazia emergir conteúdos inconscientes. Mas as pessoas estavam acordadas. Não sei se isso ocorreria neste novo tipo de sonho.
Para Plastino, a idéia de que pessoas que não sonham possam ter uma vida normal, como relataram os cientistas israelense e suíço, é estranha:
''O fato de alguém não se lembrar do sonho não significa que eles não ocorreram. E imaginar que alguém passou 30 anos da vida sem ter um sono profundo e sem ter qualquer transtorno psíquico é curioso''.
Membro da Escola Lacaniana de Psicanálise (RJ), Ana Benjó compara a tentativa de controlar os sonhos para se atingir o gozo aos efeitos das drogas. ''Se o sujeito usa isso para tentar realizar suas pequenas fantasias no sonho, ele estará vivendo uma experiência alucinógena, como a das drogas. E isso mascara seu desejo e o afasta da verdadeira realização''.(Agência Globo)

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