Psicanálise de FHC
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 16 de maio de 1997
José Roberto Whitaker Penteado 
Em artigo magistral - no Globo de 13/5 - Arnaldo Jabor relata uma sessão fictícia do presidente Fernando Henrique com seu psicanalista, a quem se queixa de que tudo parece estar desabando: apitaço, reformas empacadas, Vale do Rio Doce, CBF - e a crônica saía no mesmo dia em que a Folha de S.Paulo revelava que votos favoráveis à reeleição do presidente haviam sido comprados em bloco e tudo estava registrado em gravações...
Jabor - ele mesmo profissional de comunicação e intelectual de respeito - não hesitou em atribuir todos os problemas do atual governo à falta de comunicação (ou a imperícia em utilizá-la). Como fazer reformas que implicam em mudanças culturais - questiona - se o povo se encontra condicionado por 500 anos de estatismo patrimonialista? Por que se decidiu colocar o ator Raul Cortez a explicar delicadamente os mecanismos econômicos da privatização, diante das acusações petistas de que o governo estava a vender a mãe-pátria? E conclui Jabor, pela boca do suposto analista: Quando perguntarem por que o Brasil foi para o beleléu, reponderemos: Porque FHC não explicou direito nada.
Desde que o novo presidente assumiu que estamos usando este espaço para alertar sobre a importância das comunicações. Dia desses, falando aos alunos de administração da ESPM/Rio - que questionavam a necessidade de estudar comunicação - lembrava que a comunicação deu ao homem as condições de civilizar-se e criar a cultura. No princípio era o verbo - sentencia a Bíblia - e a própria luz se fez brilhante à ordem da palavra de Deus... As mais importantes manifestações do espírito humano - a filosofia, a poesia e todas as artes - pintura, música, escultura, teatro - são formas de comunicação. Junto comigo, à mesa da conferência, estavam quatro professores - de Marketing, Sociologia, Direito e Economia - e, após a minha parte, cada um falou sobre a importância da comunicação a partir do seu próprio ângulo de visão.
Num primeiro momento, aliás, recomendávamos ao quase assessor de comunicação Luiz Furquim que aproveitasse a intimidade para segredar ao presidente que poderia colher ótimos frutos com discretos investimentos em comunicação (em compromisso, não grana): acabar sem mais tardança com a Voz do Brasil, este estrupício do Estado Novo que nos inferniza obrigatoriamente todos os dias; que o país tem alguns dos melhores publicitários do mundo, premiados nos festivais internacionais, que poderiam ajudar a criar uma comunicação verossímil e eficiente para os governos federal, estadual etc.; comunicar-se mais, através do rádio e da TV, nos horários que lhe seriam livremente concedidos pelas emissoras, com as dezenas de milhões de pessoas que o elegeram (e muitas, também, que votaram contra), explicar - antes, durante e depois - as ações e os objetivos do seu governo, em especial as reformas indispensáveis do Estado e da administração pública. Pois até um presidente intelectualmente limitado como o americano Harry Truman, que declarou uma vez que só se conseguem remover medos e suspeitas através da comunicação livre e verdadeira, não é possível que o nosso, do alto da sua capacidade e competência, não tenha a mesma visão.
Só não concordo com Arnaldo Jabor quando aconselha ao presidente demitir a turma de comunicação do governo e contratar Nizan Guanaes e Washington Olivetto para fazê-la. Guanaes, Olivetto e mais duas ou três dúzias de competentíssimos profissionais, que são donos de ou lideram importantes agências de propaganda no Brasil, podem fazer um ótimo trabalho para o governo sob a orientação do mesmo embaixador Sergio Amaral e de sua equipe - que conta com profissionais de planejamento do porte de um Sergio Reis (ex-Bamerindus e ex-Abril). Basta, para isso, que o presidente passe a acreditar um pouquinho mais na força da comunicação e dê a esses assessores os recursos necessários e, sobretudo, a sua confiança - para que eles ponham em prática os projetos que certamente já terão elaborados. E esses projetos, tenho certeza, não deixarão de mobilizar os grandes talentos da comunicação que temos (incluindo, sem dúvida, o próprio Arnaldo Jabor) em favor das reformas que o governo precisa realizar com a maior urgência - não só para que FHC se reeleja, mas, em especial, para que o Brasil não vá para o beleléu - como ameaçou o totalmente fictício, porém muito sacador, psicanalista do presidente...


