PSDB-PFL, um projeto para mil anos - José Fernando da Silva
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quarta-feira, 05 de agosto de 1998
José Fernando da Silva 
Em política, as idéias são providas de massa e de todas as propriedades da matéria. Uma vez em curso, pela inércia, só param com uma força contrária e superior à força movente. Os sectários de Fernando Henrique Cardoso sabiam disso na hora em que votaram a emenda constitucional que permitiu a reeleição para presidente e governadores e futuramente prefeitos. A idéia é perpetuar o PSDB e posteriormente o PFL por mil anos no governo. Mas para não correr riscos desnecessários, os situacionistas abreviaram o tempo destinado à campanha eleitoral. Certos estavam que, qualquer idéia de oposição capaz de derrubar seus planos precisaria de algum tempo para prosperar. Maquiavel não faria melhor.
No próximo dia 18, os candidatos começam a entrar em nossas casas através da TV e do rádio. Numa democracia aparente, todos terão a chance para dizer a que vieram. Aparente, apenas. Ora, Fernando Henrique teve quatro anos para fazer propaganda. Os governistas idem. E não vai ser em meia-dúzia de aparições na TV que a nossa sempre tonta e quase sem discurso oposição conseguirá convencer o eleitorado de que suas idéias são melhores, de que o governo atual erra e coisas do gênero. As idéias da oposição podem até ganhar corpo, massa crítica, mas não terão tempo para adquirir a velocidade necessária de irradiação.
Ontem na Folha o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), Ilmar Galvão, declarou que talvez a Justiça Eleitoral não tenha tempo de promover o segundo turno por absoluta falta de tempo. Nas eleições anteriores, o prazo entre os dois turnos era de 43 dias, e hoje está reduzido a apenas 21 dias. Nem é preciso perguntar por que tanta pressa. Nunca, em tempo algum, um presidente governou com tamanha maioria no Congresso. Como raposas cuidando do galinheiro, os congressistas simplesmente construíram o cenário mais propício para continuarem no poder. Incapaz de reagir, por não encontrar ressonância nos ouvidos do povo, a oposição deixou passar a reeleição e não denunciou como deveria o golpe que lhe cortara a palavra.
Depois, temos que considerar a apatia política generalizada que toma conta de nossa gente. Em pesquisa divulgada ontem, o Vox Populi aponta que 32% dos brasileiros não se interessam pela disputa eleitoral. A turma é mesmo do tanto faz. Tanto faz comer hoje ou amanhã, ter emprego ou não ter, ter presidente ou ditador. É a turma da hipnose coletiva dos domingos globais. Ela está convencida que a saúde da Xuxa e de sua filha é mais importante do que as leis aprovadas no Congresso, do que o sofrimento de seu vizinho que não tem acesso a nenhuma estrutura que lhe garanta saúde.
No campo das idéias, é preciso muito mais do que tê-las. Temos que propagá-las, infinitá-las. Não estamos mais em 1917, quando panfletos eram suficientes para fazer uma revolução. Neste final de século, as idéias vazam pelos chips eletrônicos e atingem milhões de pessoas no mesmo segundo em que são geradas. Além disso, faz parte dos fundamentos propaganda política a repetição das idéias para que elas sejam assimiladas e, talvez, aceitas.
Ao desembarcar no sertão pernambucano, no último final de semana, Fernando Henrique sentiu-se à vontade para prometer o impossível: acabar com a seca no Nordeste. Ele está seguro que criou o moto-perpétuo e que nenhuma força poderá parar o movimento do reino da fantasia criado com os devaneios do pós-Real.
- JOSÉ FERNANDO DA SILVA é jornalista da Folha


