Provão, UPE e adesão conveniente
Provão, UPE e adesão conveniente
Karina Janz
No Brasil, algumas coisas viram moda com muita facilidade. Agora, por exemplo, é hora de decretar a crise em tudo. Crise econômica, crise política, crise de identidade, crise de cidadania. E, dentro deste mundo caótico, a crise do movimento estudantil. Sim, ele existe (ou existia?), e marcou presença em importantes acontecimentos da história brasileira ao longo das últimas décadas. No entanto, o papel de resistência parece estar relegado ao passado.
Refiro-me a um fato em particular. Não especificamente a um fato, mas, pior que isso, à omissão das entidades estudantis no que diz respeito ao Exame Nacional de Cursos (Provão). No ano passado, os estudantes de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (PR) decidiram fazer um boicote sério: não ajudaram a legitimar o Provão, mas também não aderiram ao boicote promovido pela União Nacional dos Estudantes (UNE), que consiste em comparecer ao local de prova e apenas colar um adesivo de protesto.
Os graduandos não fizeram a prova, e sim uma manifestação em frente ao local; em função disso, tiveram o direito de ter o diploma de graduação negado. A decisão representou uma alternativa para questionar o modo como o Provão foi instituído pelo Ministério de Educação (MEC) e os prováveis desdobramentos no ensino público superior sem prejudicar a classificação da universidade no temido ranking classificatório.
Diante desta decisão, a União Paranaense dos Estudantes (UPE) se comprometeu a entrar com uma ação coletiva contra o MEC, para que os estudantes recebessem seus diplomas. Depois de um ano sem resposta, eles foram elegantemente convidados a realizar o Provão, legitimando a postura autoritária do MEC.
O que um caso que envolve pouco mais de 20 pessoas representa para o movimento estudantil? Muito. Afinal, escancara o descaso das entidades estudantis no que diz respeito às reivindicações dos próprios estudantes. O interesse da UPE parece se resumir à ação política, com o mesmo oportunismo que se costuma identificar nos tradicionais partidos de direita. Afinal, depois de estampado em alguns jornais do Estado do Paraná o apoio da entidade no boicote ao Provão, a mobilização caiu no esquecimento... juntamente com as promessas.
Esta é mais uma prova de que as estratégias governamentais que interferem no ensino público estão dando certo. Afinal, têm como aliados a omissão das entidades que deveriam representar os estudantes e suas reivindicações, a falta de coletividade e consciência dos estudantes e o pensamento único que parece caracterizar este momento. Assim, torna-se fácil, em meio a tantos interesses comuns, promover a crise do ensino e de tudo que (ainda) é público, ao acreditar conforme lembra Frei Betto que sonhos são apenas casulos que não geram borboletas da utopia.
Por isso fica cada vez mais difícil acreditar em discursos de pessoas que se dizem críticos e contrários ao neoliberalismo de FHC, mas na prática lamentavelmente não fazem muito diferente. A UPE, talvez poucos leitores saibam, parece que paga cada vez mais caro por esse tipo de atitude. Um dia os dirigentes, possivelmente encantados com o oportunismo político, podem descobrir isso. Esperamos que não seja tarde demais.
- KARINA JANZ é jornalista em Ponta Grossa





