Ricardo Cappelli
O Provão que o MEC aplica aos formandos de 13 cursos universitários, neste dia 13, mantém os mesmos vícios que a UNE critica desde sua adoção para, pretensamente, avaliar o ensino superior no País. O exame só testa conhecimentos básicos e teóricos, não a formação do aluno sem seu preparo para exercer a profissão. Como se identifica um bom jornalista sem considerar habilidades como precisão, concisão e capacidade de interpretação e análise lógica, itens que não se consegue analisar num único texto genérico?
Entre as consequências do exame, as mais visíveis e lamentáveis são a indústria de cursinhos pré-Provão, a triagem de formandos para a prova e a utilização de nota do exame como média final do aluno. Muitas universidades direcionam seus currículos para preparar os alunos para as questões da prova, realizam simulados parecidos com os dos cursinhos pré-vestibulares, adotam seminários de atualização e substituem a carga horária oficial do curso pela carga exigida pelo MEC para o exame, tudo para que a instituição obtenha bom conceito final. Ao invés de se dedicar ao trabalho de conclusão de curso, o formando agora tem de se preocupar com a nota do Provão.
Mas os equívocos não param aí. No interior de São Paulo, uma universidade particular foi acusada de inscrever no teste somente alunos com notas altas. No interior de Minas Gerais, outra instituição privada transformou a nota do Provão em metade da média final do formando. E as distorções se sucedem na medida da criatividade dos mercadores de ensino.
O que antes era temor, agora é uma ácida realidade para o graduando. O mercado de trabalho passa a utilizar a nota no Provão na hora de contratar profissionais, apesar de o resultado individual ser sigiloso. Aparece também a infeliz idéia de divulgar a nota do aluno em seu diploma, um rótulo com base em uma única prova de poucas horas, conforme define a Federação Nacional dos Estudantes de Administração. Há uma questão intrigante: se o exame é para avaliar instituições, por que os formandos de Medicina que estão terminando a graduação no exterior são obrigados a fazer o teste para receber o diploma? Mais uma questão: qual o verdadeiro interesse de promover um exame cuja quantidade de conceitos A, B, C, D e E já se sabe com antecedência?
O Provão não vai melhorar a qualidade de grande parte do ensino superior, que atravessa uma fase de expansão indiscriminada de ‘‘fábrica de diplomas’’, todas autorizadas pelo MEC. Por que não se faz uma avaliação global, que inclua titulação, publicações e regime de trabalho dos professores, currículos, condições de estudo e ensino, bibliotecas, laboratórios, equipamentos, existência e eficácia de pesquisa, qualidade dos serviços de extensão? Isso não interessa ao governo, porque viria à tona a fragilidade de sua política educacional. O ministério prefere avaliar todo o sistema universitário pelo fim da linha, desconsiderando o processo e realçando o produto final do ensino, ou seja, o estudante, que em quatro, cinco ou seis anos de faculdade já fez dezenas de provas, seminários, trabalhos, estágios, monografias etc.
Em 1996, a UNE apresentou ao MEC um conjunto de medidas para uma avaliação completa do ensino superior. Áreas como Engenharia e Arquitetura e Urbanismo também levaram propostas ao ministério; Medicina tem o projeto da Comissão Interinstitucional Nacional de Avaliação do Ensino Médico (Cinaem); Comunicação Social entende que deve ser aplicado o Programa de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (Paiub); o Sindicato Nacional dos Professores também tem propostas. Tudo isso sem falar que as principais universidades brasileiras, basicamente as públicas, já fazem avaliação interna do ensino que oferecem. Para sistematizar essas várias opções ao Provão, a UNE e as Executivas de Curso realizam, no segundo semestre, um seminário nacional sobre avaliação do ensino universitário.
Se o governo tivesse interesse em avaliar seriamente a educação superior, deveria, no mínimo, dar atenção a todas as sugestões existentes e aos resultados das avaliações já realizadas, em vez de impor um exame que os estudantes só fazem por ser obrigados, já que o MEC retém o certificado em caso de ausência. O Provão é uma forma de avaliação falha, superficial e desmoralizada entre a comunidade acadêmica, e a insistência do MEC em mantê-lo revela falta de alternativas para melhor qualificação do ensino superior. Nós, estudantes, não temos medo de avaliação; apenas queremos que se faça a coisa certa.
- RICARDO CAPPELLI é presidente da UNE (União Nacional dos Estudantes)

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