Prova de fogo
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segunda-feira, 08 de julho de 2002
Arlete Salvador 
Chegou a vez de Ciro Gomes. Embalado pelas recentes pesquisas de opinião, que o deixam em empate técnico com o senador José Serra (PSDB) na disputa sucessória, Ciro enfrentará uma prova de fogo. A consistência de sua campanha e de seus índices eleitorais será testada na prática. Não se trata de ameaça dos adversários, embora eles possam fazê-la, mas da constatação de que, mais exposto e competitivo na disputa, o candidato passará a ser mais cobrado, mais questionado. Será acompanhado com lupa a partir de agora.
Entre os coordenadores de sua campanha espera-se algum tipo de reação dos adversários, em especial, de Serra ou do governo. ''Já recebi vários telefonemas de pessoas dizendo para termos cuidado, porque o Ciro é a bola da vez'', comentou um parlamentar integrante da Frente Trabalhista (PPS-PTB-PDT). ''Estamos tranquilos. A estratégia da campanha funcionou perfeitamente'', contemporizou o deputado federal Luiz Antônio Fleury (PTB-SP).
Segundo ele, os cálculos da Frente Trabalhista indicavam que Ciro chegaria em julho, início oficial da campanha eleitoral, com cerca de 20% nas pesquisas de intenção de voto está com 18%, segundo a última pesquisa do Instituto Vox Populi. É um grande estímulo para a campanha. Ciro vai encontrar os candidatos nos estados mais animados, depois de meses estacionado nas pesquisas. Gente motivada neste momento engrossa e fortalece palanques e apoios políticos.
Daqui para a frente, a história é outra. Ciro aproveitará este mês para fazer uma série de eventos públicos, com comícios em vários lugares do país. Semana passada, ele posou para as fotos de campanha, que serão usadas em faixas, cartazes e outdoors. Mais importante: manterá a estratégia de dirigir suas baterias e críticas ao concorrente do PSDB. Ciro está convencido de que deve disputar votos com Serra, tentando ser identificado como um candidato de oposição ao governo mais confiável do que Lula.
Até agora, sua estratégia tem dado certo talvez, não pelas razões que o candidato supõe. A pesquisa do Vox Populi demonstra que ele foi beneficiado pela queda de quatro pontos percentuais nas intenções de voto em Serra. Na comparação entre esta sondagem e a anterior, de junho, o candidato do PSDB caiu de 21% para 17%. Lula e Anthony Garotinho tiveram oscilações pequenas, dentro da margem de erro. Ciro, portanto, não tirou votos de seus colegas da oposição, mas apareceu como alternativa ao governo.
Parte desse fenômeno pode ser explicada pelas composições políticas feitas pelo candidato do PPS. Em muitos lugares, a Frente Trabalhista adquiriu um perfil conservador, em geral associado aos candidatos governistas. Na Bahia, por exemplo, seu aliado preferencial é o ex-senador Antonio Carlos Magalhães (PFL). Em Alagoas, um naco da Frente aliou-se ao ex-presidente Fernando Collor de Mello, candidato ao governo do estado pelo PRTB.
Como Serra fechou uma aliança com o PMDB, numa opção mais à esquerda da antiga aliança que elegeu Fernando Henrique Cardoso, faltava um nome no quadro sucessório que contemplasse essa parcela do eleitorado. Mesmo entre o chamado mercado financeiro banqueiros, principalmente Ciro era apontado como alternativa a Serra, no caso de o candidato do governo não decolar. Uma espécie de plano B. Pode ter acontecido o mesmo na cabeça dos eleitores. Mas ainda é cedo para saber se o seu desempenho vai se manter no mesmo nível no futuro ou é apenas uma bolha passageira.
ARLETE SALVADOR é jornalista em Brasília


