PROTESTOS NAS RUAS - Não há nada de anarquismo nos black blocs
PUBLICAÇÃO
domingo, 10 de novembro de 2013
Celso Felizardo<br>Reportagem Local 
Eles esvaziaram as ruas com protestos violentos. As roupas pretas e o rostos cobertos são características comuns aos black blocs, os blocos negros, em português. O coletivo que absorveu o nome do grupo criado nos Estados Unidos, em 1991, usa a internet como o principal meio para se comunicar e trocar informações. Na página Black Bloc Brasil, no Facebook, eles compartilham imagens de protestos e até manuais sobre como se comportar em manifestações. Carregam símbolos anarquistas com apologia à desobediência civil e atacam símbolos do capitalismo. O doutor em Filosofia da Educação e professor da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Bianco Zalmoro Garcia garante: "Os black blocs não têm nada de anarquistas".
Segundo o professor, o que ocorre é uma distorção de ideologias que se resume em um quebra-quebra gratuito. O especialista aponta que o grupo radical veio na esteira de um movimento legítimo, enfraquecido por conta da violência.
Segundo pesquisa divulgada recentemente, pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) em parceria com o instituto MDA, 93,4% dos brasileiros não concorda com a ação dos black blocs. Ao mesmo tempo, 81% da população aprova os protestos pacíficos.
A presença dos black blocs é registrada em vários protestos e por diferentes causas. Como eles surgiram e o que reivindicam?
O Black Bloc não é um grupo institucionalizado, mas sim uma tática. Uma ideia importada, que tem articulação virtual pela internet. Eles vão se identificando por pressupostos, com ideais anarquistas, mas não se pode dizer que se trata do movimento anarquista. Os black blocs não fazem identificação ideológica, apenas se apropriam de elementos ideológicos de uma forma confusa. Não há o estudo de autogestão da sociedade, apenas a destruição. No Brasil, surgiram na esteira dos movimentos sem partido, sem bandeira, como o Passe Livre e Vinte Centavos, catalisadores de manifestações bem maiores. Eles não estão ali por determinada causa, mas sim para promover o confronto com a polícia, depredar bens públicos e alheios.
Pesquisa recente apontou que 93,4% dos brasileiros apoiam protestos, mas rejeitam os black blocs. Não seria um contrassenso o grupo protestar em nome do povo que o teme?
Eles não protestam em nome do povo. São um grupo à parte das manifestações. Se aproveitam deste veio, do anonimato, da falta de lideranças nos movimentos. Neste cenário, apareceram não somente os black blocs, mas outros oportunistas que fazem sua manifestação paralela. Nota-se que os verdadeiros manifestantes, estudantes, jovens, trabalhadores, não tinham por intenção o enfrentamento. Na verdade, a insatisfação pegou o Estado de surpresa. Enquanto a população continuou protestando pacificamente contra a truculência policial, os radicais desencadearam os confrontos e a baderna baseados em ideais atrasados e retrógrados.
A alegação dos black blocs é que a desobediência violenta é uma reação à violência que recebem todos os dias pelo Estado. É possível haver legitimidade nestas ações?
A tática Black Bloc acredita que a sociedade é formada por pessoas conservadoras, incapazes de promoverem mudanças. Para isso, se apoiam no ato de desobediência civil, previsto e garantido pela Constituição. Mas quais são os limites? Acredito que eles ultrapassam o limiar quando colocam vidas em risco. A depredação constante do patrimônio público e instituições financeiras dá margens para os saques. O saqueamento descaracteriza o ideal anarquista. Dentro da história do anarquismo até houve saques, mas em outro contexto, de crise econômica, fome. E até naquela época apareciam os aproveitadores, aqueles que saqueavam uísque, por exemplo. Os oportunistas são sempre identificados nestas situações. Não podemos afirmar que os black blocs são saqueadores, mas, com toda certeza, se aproveitaram das manifestações.
O movimento começou nos Estados Unidos, ganhou força no Egito, país com histórico de confrontos violentos. No Brasil é novidade. Como lidar com isso? Enquadrá-los em Lei de Segurança Nacional resolve?
A violência pegou a todos de surpresa. Ainda não há estratégia definida sobre como agir. Mas o que se pode ressaltar é que a postura não tem respaldo, portanto a agressividade provoca a rejeição da sociedade e isto dá força para a repressão, inclusive a tipificação dos atos na Lei de Segurança Nacional. Em um grupo de manifestantes, quem não concorda com com vandalismo deita no chão. Isso os black blocs jamais fariam, a não ser para confundir a polícia. A atitude de submissão não faz parte. A postura deles é de enfrentamento. Isto cria confusão e tem que ser combatido. O estado democrático de Direito não pode tolerar.
Em junho, milhares lotaram as ruas das principais cidades do País nas manifestações. Meses depois, o "gigante voltou a dormir". Os grupos radicais enfraqueceram o movimento?
Historicamente, há uma tendência natural de recuo após a revolta inicial, mas, com certeza, a agressividade assustou quem protestava. Infelizmente o coro das reais necessidades do País foi abafado por bombas caseiras, vidraças quebradas, pessoas feridas. A juventude brasileira de classe média não está acostumada com esta postura. É necessário que haja aprofundamento nas questões sociais para reivindicar com conhecimento e não apenas por protestar.


