A mobilização do Movimento dos Sem Terra, envolvendo inclusive outras entidades, em protesto contra a atual política agrícola brasileira pode ser considerada de interesse nacional. Com efeito, e apesar das geadas e de todos os demais problemas que o campo enfrenta agora, como tem sofrido permanentemente, não há dúvidas sobre o papel que a agricultura pode desempenhar no reerguimento do País, na solução de todos os seus problemas, inclusive os da fome, da miséria e falta de trabalho, reclamando apenas a formulação de uma política coerente e consistente por parte das autoridades. Não se pode jamais esquecer que o Brasil, ao longo de toda sua história – o que vem desde o Descobrimento – tem no campo o seu maior tesouro, capaz de garantir comida e trabalho para toda sua população. Do mesmo modo, é importante rememorar as grandes e sofridas lutas dos homens do campo, que têm enfrentado todos os desafios quase sem apoio. Esta situação se tornou ainda mais grave a partir dos anos 50, quando o surgimento de uma mentalidade visando a industrialização criou uma situação absurda. Não há quem possa ser contra o processo industrial. Mas, no Brasil, a idéia foi posta quase como um confronto com a própria vocação do País. Repentinamente, o Brasil resolveu voltar as costas à agricultura. Governos sucessivos foram realizando políticas de apoio exclusivo à indústria, alegando que nenhum país desenvolvido do mundo apresentava vocação agrícola.
Este erro persiste em alguns setores até agora. Vale lembrar que alguns candidatos à presidência, entre os quais o sr. Fernando Collor de Mello, sequer se preocuparam em formalizar uma proposta de política agrícola. O produtor, ao longo de todo este processo, lutou sem apoio, enfrentando ainda alguns absurdos impostos na legislação pelos governos, entre os quais a adoção para o campo de uma política trabalhista similar à das cidades. O resultado foi o esvaziamento ainda maior do campo, o surgimento dos bóias-frias, o empobrecimento dos brasileiros, o aviltamento da vida nas áreas urbanas. Junto a isto, há também a registrar a política de formação de barragens para a produção de energia elétrica, sem dúvida necessária, mas que afastou da terra um elevado número de antigos produtores, boa parte dos quais convertida hoje em sem-terra. Completando este quadro, a política de juros extorsivos serviu para liquidar com outro grande número de proprietários de terra, que perderam o que tinham e hoje se situam também entre os marginalizados neste País.
Modificar esta falta de sensibilidade, dar ao campo o apoio que reclama e merece, tais são necessidades que não se pode mais deixar de lado. A manifestação do MST e de outras entidades ligadas à terra, no caso, é absolutamente justificada e merecedora de resposta concreta. A defesa da agricultura familiar, um dos tópicos do protesto, representa outra fator de enorme relevância. Estão certos os promotores da manifestação quando relembram que os pequenos agricultores são os grandes responsáveis pela produção de alimentos e hoje correm o risco de perder suas terras.
Esta bandeira, a da exigência de uma política agrícola efetiva no País, é – ou deveria ser –, de toda a coletividade e representa um reclamo consciente para um futuro melhor. Trata-se de cobrar das autoridades, tanto federais quanto estaduais e até municipais, uma sensibilização para o papel que o campo pode desempenhar como elemento capaz de garantir ao Brasil – e aos brasileiros – a condição de utilizar adequadamente seu potencial para atingir o patamar que lhe cabe no novo milênio.

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