Os bancos estão ganhando com a crise, porque vêm obtendo lucro adicional com isso, e por essa razão é bem pensada a idéia do Governo de forçá-los a reservar parte dos ganhos para enfrentar o aumento da inadimplência de clientes, principalmente das classes mais baixas. Esta é mais uma estratégia para afastar o risco de insolvência do sistema financeiro. É, portanto, uma medida a favor dos bancos. Verdade que se eles cometem imprudências são capazes de criar uma catástrofe financeira de dimensão imprevisível.

Se todas as providências ao alcance devem ser tomadas - desde que não sejam em prejuízo público - o fundamental seria o Governo forçar a baixa dos juros, porque é ali onde tem origem a inadimplência de pessoas e empresas que se arriscam a contrair empréstimos em bancos, financeiras e agiotas. Mais uma vez combatendo-se o efeito sem atentar para a causa. Porque juro alto gera dificuldade para quem se envolve em dívidas daquela natureza.

É justamente para garantir-se do risco da clientela inadimplente que o sistema financeiro mantém, como compensação, juros elevados para os demais clientes. São estes que dão seguridade aos bancos. É esse ponto (o juro exorbitante, gerador de inadimplência e por consequência de mais juro alto, numa nefasta roda viva) que as autoridades monetárias precisam atacar. Os bancos nunca perdem e ainda conseguem obter lucro mesmo em tempo de crise, quando quase todos os outros setores estão perdendo. O excesso de oferta de bens no mercado, com pagamento a longo prazo, embutem juro, e, embora incentivando as vendas - o que não é um mal, se houver moderação de quem compra - também pode abrir caminho para inadimplência do consumidor. O mal não é a venda a prazo e sim o elevado custo final, que não passa pelo cálculo da maioria dos compradores. O crédito consignado é outro risco para quem o usa e uma festa dos bancos, porque são funcionários públicos e aposentados que o contraem, e estes não correm risco de demissão.

A medida agora proposta não eliminará a inadimplência dos consumidores mas apenas garantirá mais segurança ao sistema financeiro contra ela. Porque o consumidor que não pode pagar as prestações não tem a mesma provisão agora proposta para os bancos. É ainda o Governo ciscando nos entornos mas não chegando ao âmago dos problemas.

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