Protagonismo juvenil e o retorno do indivíduo
Apesar do maior conhecimento sobre o tema, temos a sensação de que nos tornamos menos capazes de lidar com os jovens
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quarta-feira, 19 de junho de 2019
Apesar do maior conhecimento sobre o tema, temos a sensação de que nos tornamos menos capazes de lidar com os jovens
Espaço Aberto 
Na contemporaneidade, a juventude tem sido o foco central das atenções. Os debates sobre o tema são frequentes nos mais diversos âmbitos da vida social; seja na universidade, no parlamento ou mesmo na imprensa, não faltam discussões a respeito. Nos discursos de intelectuais, cientistas, políticos, jornalistas, educadores, familiares ou estudantes, estão presentes as representações sobre as novas gerações. Estas oscilam entre dois polos de idealizações, sendo ora qualificada como o segmento social fonte de problemas (negativo), ora como o construtor do admirável mundo novo (positivo).
Consolidada como temática central para a compreensão dos dilemas que assolam a humanidade nesse novo milênio, as discussões padecem de um problema crucial, qual seja, a obsessão pela busca de uma definição ideal de juventude. Tal operação intelectual tem gerado um arcabouço inegável de conhecimento sobre o tema, mas, por outro, é também a fonte de certo obscurantismo que obstrui nossa vivência cotidiana: ao focarmos nossa atenção no plano da categoria social (a juventude), não nos tornaríamos menos competentes para compreender o sujeito (o jovem)?
Decorre disso, em nosso entendimento, um dos maiores dilemas que assolam a contemporaneidade: apesar do aumento inegável de conhecimento sobre o tema, temos a sensação generalizada de que nos tornamos menos capazes de lidar com os jovens. Isso em razão da carga de idealizações que são projetadas sobre um sujeito no momento em que o mesmo é categorizado como “jovem” – o mesmo vale para outras categorias sociais relacionadas às idades da vida.
No presente momento, parece que a própria juventude nos apresenta seu horizonte de expectativas: ver reconhecido, definitivamente, seu protagonismo em todas as instâncias da vida social. Mais que isso: no campo político, a ação coletiva direta de reivindicação – seja contando com novas formas de intermediação das instituições tradicionais, ou ainda, prescindindo de tal mediação – foi convertida em modus operandi básico por segmentos mais amplos das novas gerações.
O protagonismo juvenil incomoda muito o “mundo adulto”, mas, por quê? De forma esquemática, a narrativa é a seguinte: (i) o novo papel social dos jovens assusta em virtude da impossibilidade de se prever a real dimensão das mudanças que poderão ser produzidas; (ii) profundas transformações sociais alteraram o panorama dos direitos referentes a este segmento etário-social; (iii) os direitos sociais da juventude estão não só consolidados no plano legal (Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto da Juventude, Lei de Diretrizes e Bases da Educação etc); (iv) como também plenos em legitimidade social, pois já exercidos regularmente no cotidiano pelas novas gerações (as “ocupações” de instituições educacionais, os eventos batizados por “rolezinhos” ou ainda as Jornadas de Junho de 2013).
Em nossa percepção, contudo, tal narrativa não dá conta de toda a realidade. Isso porque há um consenso social em prol da juventude, pois, apesar da tendência de se considerar a juventude como a época da rebeldia, da revolta social e da indignação – representações frequentes –, nada disso deveria garantir a tal segmento social privilégio no que tange às responsabilidades na construção do bem comum.
Em suma, a responsabilização perante o bem comum compete a todos, respeitadas, naturalmente, as especificidades de maturidade, capital social, dentre outras variáveis. As instituições sociais não podem perder do horizonte a ideia central de que cada qual terá uma contribuição para a construção do bem comum. E mais importante, no plano individual, cada jovem terá um grau de responsabilização perante sua comunidade.
MÁRCIO SANTOS DE SANTANA é professor na área de Teoria no Departamento de História da UEL (Universidade Estadual de Londrina)


