Prosperidade e emprego
Prosperidade e emprego
Antônio Delfim Netto
Há certas relaçoes na economia que independem de modelos, sistemas ou latitude. Quando confrontado com observaçoes sobre os riscos da política de rápido crescimento da economia chinesa, Deng Xiao Ping se defendia lembrando que à cada ponto de crescimento do PIB nós estamos criando 900 mil empregos, e perguntava: Alguém conhece caminho melhor para a prosperidade do que a criaçao de empregos?
No Brasil do Plano Real, o governo tucano se esforça para convencer a sociedade que a prosperidade independe do crescimento econômico e que a eternizaçao de altos níveis de empregos é uma fatalidade imposta por uma nova ordem mundial estabelecida a partir do conseno de Washington. De acordo com a nova ordem (sic), os países de economia periférica devem abrir seus mercados à penetraçao de produtos e de tecnologia dos países centrais. E nao importa se nossas improdutivas (por definiçao) empresas agrícolas e industriais terao ou nao condiçoes de sobreviver. Elas serao substituidas por novas empresas vindas do exterior, financiadas com abundantes recursos disponíveis no mercado internacional, ansiosos para investir no Brasil... nao existe nada mais falso do que essa interpretaçao do que venha a ser a nova ordem mundial, mas nós a estamos aceitando como uma exigência da modernidade.
Alguns de nossos economistas e sociólogos - de tendência mais acentuadamente marxista do que o velho Deng - sempre tiveram grande dificuldade de entender o processo de desenvolvimento econômico. Quando a economia crescia rapidamente, ampliando a oferta de emprego e a prosperidade geral, eles defendiam a tese de que o desenvolvimento produzia uma sociedade injusta, porque concentrava a renda nas maos de uma pequena parcela de cidadaos muito ricos. Apesar de claramente desmentidos pela evidente melhoria de bem estar de todas as categorias de trabalhadores, insistiam em afirmar que a distribuiçao da renda piorava, na medida em que a economia crescia.
Recentemente essa corrente de ilustres pensadores recebeu o reforço de um grupo de nouveaux économistes, adeptos de uma certa teologia da especulaçao, que impoe como prioridade da política a remuneraçao generosa às aplicaçoes de capitais externos, em detrimento de políticas de crescimento econômico. O endividamente externo cresce aceleradamente, já ultrapassando 170 bilhoes de dólares, sem que cresçam em correspondência os investimentos na produçao. Nao há geraçao de empregos na indústria ou na agricultura e menos ainda no setor exportador. Há seis meses consecutivos o valor das importaçoes supera o valor das exportaçoes, acumulando um déficit que se aproxima dos 8 bilhoes de dólares. Os teólogos da especulaçao supoe que a liquidez existente no mercado internacional continuará permitindo o financiamento do déficit comercial e dos próprios gastos do governo. Na medida, porém, em que aumenta a dependência externa, vao sendo reduzidos os graus de liberdade no exercício de nossa política econômica. É evidente que perdemos a liberdade de implementar políticas de crescimento e de geraçao de empregos na indústria e na agricultura. O constrangimento externo obriga a manutençao de altas taxas de juros e impede a correçao dos desvios no câmbio que inibem a expansao das exportaçoes.
Em resumo, teremos mais um ano de baixo crescimento do PIB e altos níveis de desemprego. Em compensaçao, expectativa de lucros como estas podem levar à prosperidade e à melhoria da distribuiçao de renda, até o velho Deng duvidaria...
n ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal.





