Propostas e pressão - Editorial
Propostas e pressão
A Marcha Popular pelo Brasil, coordenada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra e diversas entidades ligadas a movimentos sociais, chegou ontem a Brasília, uma das etapas de um projeto muito mais amplo, conforme assinalou o principal coordenador do MST, João Pedro Stédile. Explicando a Marcha, Stédile disse que seu objetivo é o de motivar uma discussão da sociedade brasileira sobre um projeto popular. É uma idéia válida e que poderia até se incluir em um contexto maior, dentro até do que sugeriu esta semana o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, que defendeu um pacto entre o governo federal, governos estaduais, sindicatos e demais entidades da sociedade para que se busque um consenso geral visando o ajuste fiscal. Nunes Ferreira fala em um verdadeiro pacto, o que não é a idéia do sr. Stédile, mas é certo que se tem na proposta de formulação de um projeto popular, por parte das entidades ligadas à Marcha, uma possível contribuição dentro de uma eventual discussão nacional para tentar equacionar e, a partir daí, resolver os verdadeiramente graves problemas nacionais.
Entretanto, quando o próprio coordenador do MST informa que o objetivo agora, a partir das discussões sobre o projeto popular, que devem se realizar em todos os Estados pelos militantes que foram a Brasília, é paralisar o Brasil enquanto não houver um projeto para atender a sociedade brasileira, tem-se uma posição assustadora e, em certo sentido, totalitária. Naturalmente, a idéia é a de usar as paralisações como forma de pressão. Todavia, uma vez que se anuncia um propósito construtivo de formular um projeto capaz de indicar direções ao país, a forma de impor a tese é, no mínimo, arbitrária. Não se pode esquecer que a intenção de formular um projeto representa até uma resposta ao presidente Fernando Henrique Cardoso, que criticou as oposições porque, como disse, apenas protestam mas não oferecem qualquer contribuição.
Não há dúvidas sobre a contribuição que tanto o MST como as demais entidades envolvidas na Marcha Popular pelo Brasil podem oferecer. Aprofundando um pouco, vai-se perceber que esta proposta vem mesmo de encontro à idéia do secretário-geral da Presidência. É certo que o sr. Nunes Ferreira sugeriu algo mais amplo, um verdadeiro pacto nacional, que parece excessivo diante do momento. Uma idéia do tipo da apresentada pelo auxiliar do presidente caberia em uma situação de emergência social que, felizmente, não acontece. O Brasil está em dificuldades, a realização do ajuste fiscal se encontra sob ameaça e não há dúvidas sobre o fato de que se não houver a concretização das metas econômicas será difícil resolver os problemas sociais. Ainda assim, a impressão é a de que será possível superar a crise mediante a disposição honesta de todos os brasileiros, independente de sua postura política.
O fundamental, porém, é que se busque um quadro que represente alternativas construtivas. Mais ainda, é importante que não haja neste momento um tipo de pressão que perturbe uma situação já por si delicada. Finalmente, é necessário que se tenha em mente que as propostas precisam estar dentro da realidade. De qualquer modo, tanto os participantes da Marcha quanto outras entidades e também os políticos têm contribuições a dar para encaminhar soluções que representem a resposta ao anseio dos brasileiros. Porém o que se necessita neste momento é de propostas que somem e de posturas abertas, sem ameaças ou pressões que apenas conturbam o ambiente.





