Os parlamentares se acostumaram tanto aos desmandos que agora ficam desorientados ante a chegada da proposta popular de emenda constitucional, com 1,3 milhão de assinaturas, impedindo a candidatura dos fichas sujas. Os que estão no poder nessa condição já acenam com abrandamento da proposta, o que significa desrespeitar a opinião pública. Quando um deputado ou senador apresenta um projeto de lei, ''ele vem para cá para ser examinado e modulado pelo Congresso'', diz o presidente da Câmara, Michel Temer. Mas a proposta do povo tem o poder consensual de uma decisão plebiscitária e, portanto, deveria ser respeitada como está.
Velhos costumes nocivos estão arraigados na vida pública brasileira e a presença desse projeto incomoda os parlamentares de baixa moral, porque são muitos os que podem cair nessa malha nas próximas eleições. A proposição começa a tramitar na Câmara e já há uma tropa de choque intencionando torpedeá-la.
Como um formigueiro que é remexido e deixa as formigas agitadas, os políticos não gostam que mexam em seu ninho e que lhes perturbem a paz da doce vida. Por isso não se estranha as posições já manifestadas de não deixar o projeto passar sem emendas - e óbvio que estas não seriam para robustecê-lo e sim para detoná-lo onde possível. Portanto, já se percebe que não será dada validade plena ao princípio da representação popular. A matéria já agita o ambiente e ganhará força no noticiário, obrigando a que ao menos um princípio de saneamento se instale. Esse volume de assinaturas - reunidas pelo Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral, de base popular - não é o mesmo que a vontade de um parlamentar isolado que assine um projeto. Não fosse complexa a legislação estabelecida pelos próprios membros dos parlamentos, um projeto de origem popular deveria ser aprovado ''in totum'', porque é vontade soberana do povo em sua representatividade proporcional determinada por lei. Deveria ser de interesse do próprio Congresso a implantação dessa regra de moralidade, mas parlamentares dão o testemunho de que não desejam isso, o que não deveria acontecer se eles não estivessem se sentindo ameaçados. O que vale para Brasília vale para os demais parlamentos.
Hoje, três de cada cinco parlamentares estão envolvidos em alguma forma de denúncia por ilicitudes de ordem pública, por isso eles ficam com as barbas de molho. A iniciativa popular é um avanço. Nada do que o povo decide é em vão, e se nem tudo se consegue de imediato, é preciso agir e insistir, porque cedo ou tarde bons resultados virão.

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