Propaganda enganosa
Propaganda enganosa
Antonio Delfim Netto
Devemos estar preparados, nesse início de ano, para aturar mais uma ofensiva publicitária para calçar os caminhos que levam à meta síntese do governo federal: a reeleição do presidente da República. Em matéria de publicidade oficial, o que assistimos no ano que passou foi apenas um pequeno aperitivo, que custou aos cofres públicos algo como 400 milhões de dólares. O objetivo foi mostrar ao cidadão-contribuinte, com o dinheiro do próprio, tudo aquilo que o governo imagina que obrou - e principalmente o que não obrou - em benefício da sociedade brasileira. Para este ano, se anuncia que o Palácio do Planalto vai dobrar a parada e ainda buscar um aporte adicional aos governos estaduais aliados, não importa muito o grau de pré-falência da maioria.
Do ponto de vista oficial, esse esforço de divulgação e propaganda se justifica diante dos resultados das mais recentes pesquisas de opinião: a maioria demonstra satisfação com o Plano Real e quer sua continuidade, mas ainda são minoria os que consideram essencial a reeleição do atual presidente. Como também não se vislumbra a formação da massa de votos no Congresso em número suficiente para a aprovação da emenda que permite ao mandatário em exercício disputar a própria recondução ao cargo.
Não sendo um especialista na matéria, tenho alguma dificuldade em avaliar a eficiência da propaganda oficial. O que vi, no ano passado, me leva a concordar com o julgamento feito pelo historiador inglês Perry Anderson, que a imprensa apresenta como um dos mais importantes pensadores da esquerda mundial. Ele costuma acompanhar as coisas no Brasil e é admirador confesso do presidente, que elogiou num ensaio recente. Numa entrevista a Emir Sader, no jornal O Globo, diz o sr. Anderson: O governo faria melhor se tivesse consciência dos limites do que pode fazer, em vez de cair num êxtase intelectual que só o desacredita. As recentes afirmações, de que um terço da população mais pobre saiu da pobreza no espaço de um ano - que viu crescer em menos de 2% a produção industrial - parece surrealista. O senso comum deve servir para previnir essas fantasias...
Na minha pobre opinião, não apenas o common sense (como elegantemente se expressou o sr. Anderson) anda ausente da divulgação e das peças de propaganda do governo. Gasta-se muito dinheiro para iludir o público, ora com propaganda enganosa, ora com fantasias tão óbvias que só podem mesmo ser produto de um estado de êxtase intelectual tucano...
Gasta-se uma montanha de dinheiro - que eventualmente poderia financiar a construção de moradias para a pobreza, por exemplo - para dizer ao povo que os Correios entregam cartas ou que a Petrobrás vende gasolina e, o que é mais grave, que a Telerj e a Telesp estão entregando telefones - que nunca chegaram às casas dos usuários, mesmo aqueles que já os compraram e pagaram há dois anos! A legislação que pune a propaganda enganosa não se aplica ao governo! Nem mesmo quando ela é berrantemente mentirosa, como na recente oferta de venda de computadores a prestação pelo Banco do Brasil, onde se anuncia a menor taxa de juros do mercado... O leitor que virar a página seguinte do jornal vai encontrar oferta do mesmo produto, financiado por um banco privado, com a taxa de juros reduzida à metade!
É preciso mobilizar os organismos de defesa do contribuinte-consumidor, diante dos exageros a que o êxtase intelectual tucano está nos conduzindo com sua propaganda enganosa!
- ANTONIO DELFIM NETTO é deputado federal (PPB-SP)





