Propaganda enganosa - Arlete Salvador
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 28 de agosto de 1998
Arlete Salvador 
Desde o fim das horríveis campanhas eleitorais do período militar, em que a televisão mostrava apenas uma foto 3x4 dos políticos com uma voz cavernosa ao fundo lendo currículos burocráticos, busca-se um modelo de propaganda que possa servir de ajuda ao eleitor na hora de votar. A televisão, essa maravilha da era moderna, tem o poder de erguer ou destruir candidatos; de instruir ou desinformar o eleitor.
Os modelos que se seguiram aos santinhos eletrônicos da ditadura revelaram-se igualmente ineficientes. As primeiras campanhas dos anos 80 concentraram a apresentação dos candidatos em blocos de uma hora de duração. Foram fracassos retumbantes. Vieram depois os blocos menores, divididos em duas partes, para dar fôlego ao telespectador. Também não agradaram. Na sequência, criaram-se as inserções comerciais, em que os candidatos são apresentados como se fossem um novo tipo de iogurte.
Este ano, optou-se por dividir os candidatos a cargos majoritários e proporcionais em blocos de programas diferentes. Com a agravante do direito de reeleição do presidente e dos governadores, novidade no cenário político brasileiro, a cabeça do eleitor deu um nó. Ele não sabe mais o que é propaganda de governo e o que é campanha eleitoral. Em vez de esclarecer, a campanha está servindo para confundir.
Nem os debates entre candidatos, que eram considerados alternativa séria à bobagem da campanha eleitoral televisiva, têm servido para algo mais nobre do que entreter com piadinhas os telespectadores. Na terça-feira passada, um debate reuniu os candidatos a governador de São Paulo. O resultado em nada diferiu das propagandas de televisão. As perguntas foram ignoradas e a maior parte dos candidatos preferiu falar genericamente da maravilha que será o seu governo.
Tudo indica, a julgar pelas experiências fracassadas, que o problema das campanhas eleitorais na televisão é mais de conteúdo do que de forma. Ao longo do tempo mudou-se a embalagem, usou-se papel brilhante e vistoso e laços de fita. Nada. As campanhas eleitorais continuam a sofrer de um mal incorrigível: a distância do eleitor. Quer em debates, quer em inserções comerciais ou mesmo no horário da propaganda tradicional.
Não parece haver, da parte dos candidatos, interesse em informar o eleitor, seja em qual formato televisivo for. Os coordenadores de campanha costumam dizer que se pautam por pesquisas de opinião indicativas do que quer a população de um candidato e seu futuro governo. A pesquisa pode ser verdadeira, mas o que se vê na televisão como resposta às demandas da população é mero fingimento. Os candidatos fingem que estão oferecendo o que o eleitor quer. O resultado é a mais pura fantasia, que fica a anos-luz da realidade do dia-a-dia brasileiro.
É inútil discutir o formato dos programas. O que conta é a disposição dos candidatos de informar e esclarecer o eleitor sobre os seus projetos. Boa parte dos candidatos (seria injustiça generalizar essa crítica) não quer isso. Usa as pesquisas de opinião para manipular o eleitor. Aposta na ignorância da população. Dessa forma, perpetua a ignorância e se perpetua no poder. Um círculo vicioso que nenhum formato de propaganda eleitoral na televisão conseguiu romper.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo


