Nestes dias em que se discute ferozmente as virtudes e defeitos do programa ''Fome Zero'', é frequente a famosa citação da opção entre dar o peixe ou ensinar a pescar. Essa história é tão antiga e comentada que vale à pena tentar extrapolar seus limites e tentar ser um pouco original.
Em primeiro lugar, ainda na interpretação antiga, consideramos bastante óbvio que, para quem tem fome agora, não seria possível esperar por um curso de pesca. Assim, mesmo concordando com a importância de se ensinar a pescar e, eventualmente, a doação (os mais exigentes optariam pela venda ou aluguel) de uma vara, é sempre preciso resolver logo o problema emergencial da fome.
O que muitas vezes esquecemos é que, após saciar a fome imediata e ensinar a pescar, há ainda um problema a resolver: por mais que o interessado se disponha a utilizar o conhecimento aprendido e o instrumento de trabalho obtido, nem sempre ele estará perto da água e nem sempre nela existirão peixes comestíveis.
Na vida real, onde a situação nem sempre é tão fácil e linear como nas parábolas, muitas vezes as varas se mostram inadequadas quando o ''mar não está pra peixe''.
Se a situação do ambiente, no caso o econômico-social, não permite a utilização dos conhecimentos, habilidades e instrumentos obtidos, o indivíduo continuará dependendo da doação de peixes para sobreviver. É preciso, portanto, pensar nessa etapa seguinte, onde o ambiente deve ser adequado de forma a permitir o trabalho e a sobrevivência sem a dependência continua em relação ao paternalismo tradicional da entrega do peixe.
Essa adequação do ambiente só pode ser obtida pelo desenvolvimento econômico, gerador de empregos e de oportunidades ao empreendedorismo de cada um.
Embora o desenvolvimento econômico dependa em grande parte do setor empresarial, faz parte do papel do Estado estabelecer políticas públicas que garantam um entorno institucional propício ao investimento e à geração de postos de trabalho. E, dentre o elenco de políticas públicas a serem estabelecidas, cabe destacar as que se relacionam com incentivos à inovação, pois esta (a inovação) é a principal garantia de que os produtos (as empresas, as regiões, os países) serão competitivos no chamado ''mercado globalizado''.
Por isso, ao lado das políticas específicas de doação de peixes e de ensino da pesca, é preciso que as ações governamentais dêem também a devida prioridade à Ciência, Tecnologia e Inovação, apoiando as entidades públicas e privadas que se dedicam ao setor e garantindo, assim, que nas águas em que se pretende pescar haja alguma probabilidade de existirem peixes.
PAULO VARELA SENDIN é engenheiro agrônomo em Londrina

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