Final de ano, festas, promessas. Impossível não assumir compromissos para 1999, já de olho na virada do milênio. De cara, penso em quatro itens óbvios nos quais pretendo me empenhar no ano que começa amanhã, não necessariamente nesta ordem:
1) parar de fumar;
2) voltar a praticar exercícios físicos;
3) fazer uma dieta;
4) começar um plano de previdência privada.
Como se vê, não há nenhum compromisso original nessa lista. Imagino quantos milhões de pessoas prometeram a si mesmas começar 1999 sem um cigarro nas mãos, comendo um peixe grelhado e suando na academia de ginástica. De uma forma ou de outra, nossos compromissos com coisas a fazer no futuro sofrem de uma terrível mesmice. Carecem de individualidade e, principalmente, de sinceridade com aquilo que, de fato, gostaríamos de fazer.
A lista de prioridades de vida, em geral, não é nossa. Está recheada daquilo que alguém nos disse que deveríamos fazer. Manuais ensinam como educar os filhos, economizar para comprar a casa própria, alimentar-se para evitar o estresse e o câncer. Está tudo nos livros de auto-ajuda, nas reportagens de jornais e televisão com uma autoridade na doença do momento. Há receitas de bolo para tudo. Para vencer na vida, para vender mais, para motivar subordinados, para pedir aumento de salário, para ter uma vida sexual mais (ou menos) ativa, para engordar ou para emagrecer. Não faltam também os vilões e os heróis do mundo vegetal e animal. A cada hora um faz mais mal do que outro. Mais tarde, vice-versa. E lá vamos nós trocar o brócolis pela alface.
É curioso que todas essas dicas são apresentadas como ordens a serem cumpridas. Todas vêm escritas no imperativo: pare de fumar. Pare de comer açúcar e carne vermelha. Não use terno marrom nas entrevistas para emprego. Não faça isso, faça aquilo. Não existe nem espaço para que leitores ou telespectadores raciocinem se querem mesmo parar com isso ou com aquilo e se gostam de comer tal e tal coisa. Nessa geléia geral, que muda de forma ao sabor do vento das indústrias de consumo e da propaganda, vamos fazendo nossos compromissos de ano novo. Quantos deles são nossos mesmos?
Pensando bem, a minha lista seria outra se, no meio da pressão das coisas que tenho de fazer ou preciso fazer em 1999, fosse possível ouvir o que diz o meu coração e a minha cabeça:
1) fumaria menos, com mais prazer;
2) voltaria a dançar e a correr, que eu adoro;
3) trabalharia menos, para ter tempo de cumprir os itens acima;
4) viajaria mais.
Mesmo essa lista é imperfeita, influenciada por muitas das abomináveis regras politicamente corretas de ser e se comportar. Mas já é um começo. O segredo está em procurar descobrir o que de fato queremos fazer do novo ano. Livrar-nos do barulho dos manuais de auto-ajuda e escutar as nossas necessidades reais. Temos mais chance de alcança-las. No mínimo, entraremos no próximo milênio sendo mais fiéis a nós mesmos, o que não é pouca coisa.
- ARLETE SALVADOR é jornalista em São Paulo

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