Projeto de Vida
PUBLICAÇÃO
sábado, 20 de setembro de 2003
Phoenix<br> Reportagem local 
Casar, comprar uma casinha, criar os filhos, ter um carro na garagem, férias na praia... o velho sonho se repete de geração em geração para cada casal que começa a vida. Antigamente, a luta era a dificuldade para estudar e a dureza de uma vida sem os confortos da modernidade. Hoje, os casais enfrentam a concorrência acirrada, o mercado competitivo e uma montanha de impostos e juros que tornam o projeto de construir família uma verdadeira façanha.
Aymoré Kley, 80 anos, é o que se pode chamar de um vencedor. Alguém para quem se olha com inveja ''no bom sentido'', um exemplo de um projeto de vida bem feito. Casado há 55 anos com a mesma mulher, Iza, pai de cinco filhas, Aymoré mora num apartamento confortável no centro da cidade e tem uma aposentadoria que lhe permite desfrutar pequenos prazeres como as aulas semanais de violino que ainda encara com a mesma disposição de 60 anos atrás.
O caminho para chegar até aqui não foi fácil, conforme ele mesmo conta. Filho de uma família pobre do Rio Grande do Sul, a infância de Aymoré teve muitas privações: ''Meu pai era ourives e minha família passou por muitas dificuldades. Durante anos ficamos devendo para o armazém de secos e molhados onde comprávamos comida''. A falta de dinheiro frustrou também o maior sonho de Aymoré: ''Eu queria muito ser médico mas não tinha condições de ir estudar em Porto Alegre. Acabei fazendo um curso de guarda-livros''.
Antes mesmo de terminar o curso, ele recebeu uma oferta de emprego para trabalhar num banco. O salário, 150 mil réis, dava para custear os poucos divertimentos de Aymoré, então um adolescente de 16 anos. Enquanto a I Guerra Mundial arrasava a Europa, a juventude da época frequentava bailes e quermesses de igreja. ''Eu já gostava de música e comecei a estudar violino'', lembra.
Assim que apareceu o primeiro concurso para o Banco do Estado do Rio Grande do Sul, Aymoré deixou o emprego de contínuo e subiu o primeiro degrau profissional. Depois passou no concurso do Banco do Brasil, um 'empregão': ''Naquele tempo o banco era uma maravilha. Quando tinha concurso, aparecia gente de todo lugar prá tentar uma vaga. Os salários eram pagos em dia, tinha aumento e um monte de benefícios. A gente era invejado'', reconhece Aymoré.
O jovem bancário chegou a Londrina em 1945 e além do banco, arrumou emprego numa rádio. Conheceu Iza num casamento e ficou de olho na moça. ''Eu passava todo dia na frente da rádio onde ele trabalhava. Um dia, me jogou um bilhetinho lá de cima convidando para um cineminha. E eu fui'', conta Iza. ''Naquela época, funcionário da rádio podia assistir o filme de graça'', brinca Aymoré. O cineminha acabou em casamento em 1948. Aymoré tinha 25 anos e Iza, 16.
Com a segurança dos dois salários, Aymoré alugou uma casa no centro da cidade. Mas o casal sonhava a mesma coisa que todos os outros casais do mundo: casa própria. ''Eu tinha preocupação de comprar uma casa. Fiquei de olho nas oportunidades que apareciam e logo achei uma casinha de madeira, ajeitadinha. Financiei pela Caixa Economica com juros de 1% ao mês e como eu tinha um dinheirinho guardado, o financiamento não ficou muito longo'', lembra Aymoré. ''Naquele tempo era muito mais fácil comprar as coisas'', reconhece. Quem cuidou da reforma da casa foi ela: ''Eu sempre fui pau prá toda obra. Pintei a casa inteirinha, por dentro e por fora''.
Depois da casa, o carro. ''Fui o primeiro motorista a desfilar pela cidade com o lançamento da Ford, um carrinho alemão que eu financiei em 12 meses'', recorda Aymoré. ''Ele sempre controlou as finanças da família mas a gente conversava sobre tudo e estava sempre de acordo. Não éramos gastadores nem exagerados, levávamos tudo contadinho'', garante Iza.
Apesar das cinco filhas pequenas e só com o diploma do primário, Iza também descobriu uma maneira de ganhar dinheiro. Começou a fazer bolos e o talento logo transformou o passatempo em profissão. Os clientes vinham até de outras cidades procurar a doceira que fazia bolos que eram verdadeiras obras de arte: violões, patins, bonecos gigantes, melancias, personagens de desenhos animados. Aymoré financiava a compra dos ingredientes e Iza guardava o lucro: ''Eu queria ter um dinheirinho meu e de qualquer forma, gastava tudo aqui em casa. Prá quem casou sem saber nem acender o fogão, eu fui longe''.
Das cinco filhas do casal, quatro fizeram curso superior, medicina, odontologia e jornalismo. A outra filha é decoradora. Quando olham para trás, os dois garantem que a vida não era fácil: ''Passava um carro na rua e fazia tanta poeira que a gente não enxergava nada dentro de casa. Cuidar da roupa branca era um sacrifício. Não tinha fogão a gás, era preciso rachar lenha, as ruas era feitas de lama e buracos'', lembra Iza. ''Toda vez que a gente viajava era um horror, a gente assoava o nariz e saía um tijolo. A vida era dura. Não existiam os recursos e o conforto que a gente tem hoje. E a minha renda, mesmo com dois salários, era esticada porque o dinheiro era difícil e a gente tinha cinco filhas prá criar'', diz Aymoré.
Sem medo de trabalhar ou de encarar as dificuldades, os dois conseguiram realizar praticamente todos os sonhos que tinham quando se conheceram e iniciaram a família. ''Eu sou um homem muito feliz. Tive uma boa vida e não tenho saudades do passado. Até hoje tenho oportunidades novas que compensam os momentos felizes que ficaram prá trás'', conclui Aymoré.


