PROFISSÃO SEXO - O corpo como instrumento de trabalho
''Profissionais do sexo'', item 5.198 na Classificação Brasileira de Ocupações do Ministério do Trabalho. Um avanço na conquista de direitos que ainda não sobrepõe o preconceito e a discriminação sofridos pelas prostitutas, que estão se organizando para reverter este quadro. Um exemplo é a União Maringaense das Profissionais do Sexo, criada há quatro anos para oferecer melhores condições de vida às prostitutas de Maringá. Nesta entrevista, a presidente da ONG, Arinéia Martins Gonçalves, fala sobre a entidade e os resultados obtidos até hoje.
Como surgiu a idéia da ONG?
Começou em 2001, quando nós tivemos em Maringá um delegado e um grupo de policiais que tomavam nossos documentos, nos prendiam por vadiagem ou cobravam propina. Dois anos depois, tivemos problemas com skinheads e uma lei aprovada do Legislativo dizendo que prostitutas e travestis não tinham mais direito de ir e vir. Aí eu me manifestei cobrando meus direitos de cidadã, de profissional do sexo, movimentando várias entidades entre elas a OAB para criar a União. Demoramos cinco meses para conseguir registro, porque não aceitavam que a gente colocasse ''Maringaense''- como se Maringá não tivesse prostituição - e começamos a lutar pelos nossos direitos de classe trabalhadora como qualquer outra. Inclusive já fomos reconhecidas pelo INSS como profissionais do sexo, podendo pagar contribuição.
E a resposta da sociedade no início?
Muita gente ainda acha que a ONG existe para cafetinar mulheres. A gente quer trabalhar a auto-estima destas mulheres para que elas tenham os direitos respeitados e possam, da melhor maneira possível, contribuir com seu município, seu país. Mas a discriminação ainda é muito grande. A própria sociedade que utiliza nossos serviços na calada da noite, durante o dia faz questão de nos recriminar.
Como funciona o trabalho da entidade?
Buscamos parcerias junto à sociedade, oportunidades de emprego, de formação para as meninas que querem. Tem aquelas que não querem mudar e nós respeitamos isso. Contamos com advogados, psicólogos, e reuniões semanais em uma sede previsória com profissionais da saúde, da secretaria da mulher. Nós também vamos à rua trabalhar a prevenção. Na década de 80, com a explosão da Aids, a sociedade apontou as prostitutas como as únicas transmissoras da doença. E a gente vem provando que na realidade somos as mais capacitadas na prevenção de DST e Aids. Sabemos que nosso corpo é nosso instrumento de trabalho, então a preocupação é muito maior.
A prevenção de doenças é a maior preocupação?
É preocupante não só para a gente. Se estou na rua tenho vários clientes: solteiro, casado, divorciado. Então tenho que pensar não só na minha saúde mas também no cliente, passar o melhor de mim para ele para que ele retorne. Ganhar o dinheiro é muito bom, poder pagar as contas é muito bom, mas a saúde é fundamental e não pode faltar para a gente de maneira alguma.
E quais os principais resultados conquistados nestes quatro anos?
Foram vários pontos positivos, mas o que mais me agrada é ver mulheres fora da rua. Umas casaram e têm filhos, outras estão estudando, se formando na faculdade. E a nossa mais velha, que tem 61 anos, estamos buscando a aposentadoria dela, o que seria uma grande conquista. Antes de serem prostitutas, muitas delas são mães de família e se fizerem tudo certinho, cumprir com os deveres, vão crescer e encontrar novos rumos.
A regulamentação da prostituição vai ser positiva para vocês?
Precisava legalizar, mas têm que ser muito bem estudados os prós e contras. A gente pensa nas prostitutas que estão em casas e ainda são mantidas de certa forma como escravas, e passariam a ter salário, mais liberdade. Por outro lado, tem que ver a repercussão disso. Não é todo mundo como eu, que chega para abrir conta em banco e responde prostituta quando perguntam a profissão.





